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Reflexões Sobre a Igualdade


"“Apenas porque sabemos que somos iguais, queremos ser diferentes...”

Autor: Anne Marie




A vida é um estado e não uma forma
O homem sempre, em todos os tempos, buscou aquilo que ele chamou de entendimento entre os semelhantes. Assim, foram criadas as comunidades de interesses comuns, lugares onde pessoas com as mesmas preferências podiam se encontrar e então partilharem das mesmas opiniões. Também assim foram criados os retiros onde os mesmos interesses doutrinários era a prática comum, e assim foi com as religiões, e com os grupos partidários. E assim surgiram os arregimentadores dos séqüitos ansiosos por novas propostas e objetivos. No lastro disso tudo, veio o poder da autoridade, aquele que deveria dizer como haveriam se portar os seguidores das muitas facções de interesses comuns criadas.

Foram criadas as regras e as punições, e aquele que sabe mais, surgiu criando a necessidade de hierarquia dentro do plano do saber espiritual. O conhecimento então ganha status, diferenciando como menor ou maior, a importância das pessoas, e surge em todas as culturas o desejo de atingir-se o topo dessa hierarquia do saber, e pelo esforço e provações essa busca torna-se prática comum.
Fisiologicamente, a não ser por pequenas variações genéticas, a maioria delas imperceptíveis, são os homens todos iguais. Por serem iguais, o mesmo ar todos igualmente respiram, e assim é também com a água que lhes sacia a sede, e com os alimentos que dá vitalidade aos seus corpos. O aspecto externo da forma, esse muda um pouco, e temos os rostos, o sexo, a cor da pele, compleição, tom de voz, diferenciando um ser do outro. Estes e mais outros, são aspectos externos que dão a identidade pessoal de cada um, o que diferencia em aparência um do outro. Mas o que torna na verdade um ser diferente do outro, decerto não é sua aparência, ou o tipo de alimento que ingere, e sim suas idéias. São as idéias produtos dos seus pensamentos, assim, o que na verdade diferencia um ser humano do outro, são seus pensamentos, o modo como cada um, individualmente ou em grupo, transforma seu pensar em ações ou reações.

Necessidades iguais e idéias diferentes. As idéias, este é o ponto principal da discórdia entre as pessoas. Logo cedo, o homem se percebeu como igual em necessidade de sobrevivência, e analisando depois certos aspectos da sua morfologia psicológica, percebeu que intelectualmente uns eram mais capazes de aprender que outros. No reino animal, onde a força e a destreza física caracteriza maior capacidade de sobrevida e, portanto de superioridade, o intelecto em algumas espécies fisicamente menos favorecidas, desempenham papel igual. Assim é com o homem. Nos estágios iniciais das civilizações, a força física faz o papel diferenciador tornando-os inferiores e superiores, caracterizando os dominadores e os dominados, mas com o passar das gerações, o conhecimento e a destreza intelectual surge como fator diferenciador.

Mas o homem é complexo, a da diversidade de pensamentos, surgiu à confusão, e assim seu mundo se tornou cruel e competitivo, como é sua mente, confusa, conturbada, ambiciosa, sem abandonar sua violência animal. Num lugar onde inicialmente a força física era o fator de domínio, agora o intelecto assume este papel, e os critérios de diferenças psicológicas foram criados, tornando os homens iguais como animais, mas diferentes pelo modo de pensar. Assume então a mente, o controle do homem, definindo seus valores, seu modo de se comportar, todos seus objetivos, o significado de suas vidas. Suas células cerebrais, inicialmente iguais em função, se alimentam apenas desses pensamentos, e assim, seu objetivo é procurar e acumular informações, tornando a quantidade destas informações, o fator diferenciador, qualificando-os como superiores e inferiores, como mais ou menos capazes, como dominadores e dominados.


Diante da criação todos são iguais
Assim, a rapidez do raciocínio, na verdade a facilidade que alguns possuem, de transformar cadeias de imagens em pensamentos ou idéias, tornou-se o diferencial de qualificação do homem, como de maior ou menor valor, como forte ou fraco, como superior ou inferior. Em suas relações humanas, o homem obra do pensamento, criou várias divisões, separando-o de todos os demais. Do seu centro, de onde ele observa os outros, identificado como um indivíduo com nome próprio, cuja origem atual ele conhece, dotado de atributos que o permite ter uma profissão, uma ideologia, crenças variadas, opiniões sobre as coisas que conhece, ele criou um imenso espaço entre si e todas as coisas que estão à sua volta. É este espaço delimitador que o permite se ver diferenciado dos demais.
Difícil imaginar, como surgiu às razões dos delimitadores raciais, mas pela natureza do homem, podemos chegar facilmente às causas. A constituição do ambiente familiar é para a maioria dos homens sua odisséia de vida. Para isso ele se transforma em qualquer coisa. Torna-se ambicioso, cruel, violento, ávido por poder. Todos desejam conforto e um lugar sossegado para viverem, os meios para se conseguir isso, podem ser um tanto quanto cruéis e insensatos. As religiões já proclamavam a pratica da virtude como certeza de méritos, imediatos ou vindouros, mas nunca se preocuparam com coisas que não fosse a aparência estética, externa. Assim, o homem se preocupou apenas em aparentar, e com o tempo aperfeiçoou os chamados estados virtuosos, aprendeu a aparentar cortesia, gratidão, respeito, ternura, até mesmo amor, e tantos outros, obedecendo a um padrão, que igualmente todos adotaram, de representação dramática para conseguir atingir seus objetivos.

Nunca deixou de ser cruel e violento, ambicioso e invejoso, mas aprendeu com grande habilidade a esconder cada uma dessas facetas, usando a máscara da virtuosidade, tão bem aceita e praticada por todos. Vive então o homem da simulação, do seu talento pessoal em representar o que quer que os outros pensem que ele é, e todos fazem o mesmo, desse modo, todos fingem, e todos aceitam o fingimento como norma de vida, e no silêncio da sua psique cruel, se atormenta por saber que é fraco e desumano. Conforta-os temporariamente, as penitências às divindades cuidadosamente criadas para lhes aliviar do desgosto, causado pelo remorso de muitas culpas acumuladas, como sempre aspectos externos, onde publicamente ele demonstra arrependimento, tantas vezes quantas for sua necessidade de ganhar satisfação através da mentira, e como todos também o fazem, todos, para também um dia poderem ser perdoados, fingem também acreditar.

É um culto público a hipocrisia, cruel, padronizado, que todos aceitam como norma de vida, de cujo meio surgem os virtuosos, e aqueles desejam um dia se tornarem virtuosos, na aparência como prega a regra estabelecida. As razões de ser o homem cruel, dono de uma maldade calculada, organizada, articulada em detalhes, classificada em tipos e aspectos, em nada têm a ver a natureza do animal que é, pois os animais não o são, não pensam, não planejam durante dias, antecipadamente, suas ações. São os homens iguais na programação psicológica que seguem. Digladiam-se competindo entre si porque isso lhes dá satisfação, é a disputa onde os inferiores precisam existir para justificar a existência dos superiores, onde o ambicioso é sinônimo de determinação, de ousadia, onde o fraco precisa existir para dar suporte à presença dos fortes.

Pelo intelecto o homem criou suas próprias divisórias e fronteiras, separando-se em classes sociais, em grupos doutrinários; instituiu qualificação e valor diferenciado aos credos, classificou em maior e menor o valor de suas opiniões, criou a feiúra e beleza, determinou o modo de viver em sociedade, uniformizou as raças cultas e as incultas, criou os valores, os motivos, e todas as regras que os diferenciariam dos demais. (Ester)





Autora: Anne Marie Lucille
email: annemarielucille@yahoo.com.br






   Imprima esta Página Adicione aos Favoritos Última atualização: 26 de Outubro de 2005
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