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Reflexões Sobre o Movimento
"O movimento tem início quando percebemos que tudo parou..."
Autor: Anne Marie Lucille
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Na base do movimento, não há formas, mas as formas das formas
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Num universo mental cada componente dele teria que ser memória. Supondo então que cada célula de memória - já vimos isso antes - tenha inteligência, algumas dotadas de recursos inteligentes capazes de organizar as informações armazenadas dentro de si e agir, conforme sua função, assim como num organismo vivo, onde cada célula independentemente das outras tem suas próprias funções, trabalhando juntas ou isoladas, para uma causa comum que é manutenção do corpo, poderíamos então ser classificados como células de memória desse grande Universo Mental, onde juntas, seres vivos e elementos, o que compreende tudo que existe no universo, formaríamos esse Universo Mental. Restaria a questão, esse Universo teria, assim como o nosso universo mental, um centro, um ego controlador, o pai seria como o filho, ou o seu funcionamento em nada se pareceria com o nosso? Isso talvez nunca venhamos a saber, não, buscando a resposta no passado do homem.
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Supondo que estas células de memórias, poderíamos chamá-las de Mentes Específicas ou Mentes Parciais, fossem dotadas das mesmas possibilidades ou recursos do Grande Mental, isso implicaria dizer que erros e acertos, caminhos errados ou certos, as possibilidades dualísticas que conhecemos, seriam condições naturais dentro dessa Ordem, a Grande Mental. Isto é, o caminho que o homem tomasse, estaria dentro das previsões, mas isso não significaria ordem, ordem no sentido de organização, perfeição, seria um desvio dessa ordem, mas assim mesmo algo previsto.
Há um princípio que faz parte do estado vida, não a vida como a conhecemos, mas a força que vitaliza os seres biológicos, e que entendê-lo pode ajudar o homem a perceber melhor o mundo à sua volta, a compreender como nascem e se multiplicam os problemas e conflitos, como trabalha sua psique na criação e manutenção do seu modo operacional, o modo como vive o homem em suas relações, e talvez de usá-la em seu benefício, usá-la como aliado, e não como inimigo como o tem feito ao longo das eras.
O movimento está presente em todas as coisas, não aquele movimento que associamos com a lei física da mecânica, que trata do movimento cronológico dos corpos, mas outra condição que iremos refletir sobre ela. Conhecemos o movimento, movimento cronológico, este está associado ao tempo e espaço, e representa algo se deslocando de uma origem a um ponto final. Este está presente todo tempo em nossas vidas, não podemos dele nos dissociar, é a progressão natural dos seres biologicamente constituídos. Tempo e Movimento, não estão separados, e como acumuladores de experiência que somos, estamos incondicionalmente a eles ligados. É o movimento das circunstâncias modificadoras da nossa vida, que de um centro periférico – eventos paralelos que ocorrem à nossa volta, quer fiquemos sabendo ou não - se aproximam de nós e nos transformam.
É o movimento do próprio viver, não da condição vital, onde tudo parte de uma origem em direção a um objetivo, que pode ser a própria origem. Semente se transforma em árvore, flor em fruto, criança em adulto, ignorante em letrado. São os movimentos de que tratam a lei mecânica - forças que provocam o movimento - na física clássica.
Basicamente esta ciência estuda e explica os movimentos dos corpos, e as forças que sobre eles atuam, tais como velocidade, inércia, atrito, etc. Por isso existem verdadeiros tratados científicos que explicam e detalham movimentos, tais como; das águas, das marés, dos objetos que são arremessados de um lugar para outro, do desenvolvimento orgânico as espécies, que apesar de ser outra ciência que o trata, é a mesma coisa. Segmentam-se as ciências conforme o fenômeno que se deseja estudar, assim é, biologia para estudar o desenvolvimento celular, geologia para explicar a movimentação da terra, etc.
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A base é movimento sem ação
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E dentro de cada ciência, outras tantas são criadas para explicar novos fenômenos. Por exemplo, dentro da mecânica dos movimentos, estuda-se a lei da inércia, que determina o grau de resistência ao movimento, que todo corpo naturalmente opõe quando é submetido a uma força, no exato momento em que se desloca no tempo espaço. Este tipo de movimento, ou movimentos, se resumem a uma só coisa, cronologia. Esse evento, não se limita apenas ao evento tempo versus espaço percorrido, este que podemos aferir visualmente ou por meio de instrumentos, vai muito além disso.
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Por exemplo, tudo que desenvolve na terra, submetida a uma força qualquer, sempre parte, se desloca, de uma posição inicial que chamam de ponto de inércia, a uma posição final, não importando à distância que seja percorrida, se perceptível ou imperceptível. Assim uma coisa, submetida a uma força qualquer, por mais resistência que oponha à pressão de deslocamento, já terá sofrido alguma alteração. Caso sua movimentação não seja perceptível por conta da insuficiência da força à qual foi submetida, mesmo assim, sua estrutura terá sofrido alterações, e com essa alteração terá havido uma redução em seu tamanho, o que significa uma alteração no seu campo espaço tempo, um movimento temporal, um movimento cronológico portanto, e submetido à mesma força, sucessivas vezes, acabará por deslocar-se fisicamente, visualmente.
Isso que chamamos de movimento representa apenas um aspecto dos corpos constituídos pelo movimento, movimento este que representa um dos atributos da vida, talvez o mais ativo. Temos então o movimento cronológico que é tempo, e é este mesmo movimento, que pela projeção do tempo transforma todas as coisas, deslocando-as de um ponto inicial, o que era, para o ponto final, o que atualmente é. Esse fenômeno é essencialmente físico, é o progresso de um estudante, por exemplo, que partindo do primário, entra na faculdade; é a regeneração de uma célula, que sofre uma deformação e se recupera; é força do vento agitando a folhagem de uma árvore, que num primeiro momento pode aparentemente nada ter transformado, mas que com a continuação, fará diminuir a resistência das folhas tornando seus talos mais flexíveis, enfraquecerá seus ramos e mesmo os resistentes caules.
Os seres biológicos dependem desse movimento, pois a transformação é a força que os impulsiona de um ponto a outro na linha da vida. A vida é um movimento, mas o viver nada tem em comum com esse movimento primordial, e por mais paradoxal que possa parecer não são semelhantes. No movimento primordial não temos a presença do tempo ou espaço, já nesse outro, crucial é sua dependência do espaço tempo. No primeiro, não existem coisas onde o movimento possa ser aplicado, não existindo o tempo ou espaço, portanto dependendo estes, do próprio movimento para existir. No segundo, já existem as coisas onde o movimento pode ser aplicado, já existe o jugo do tempo, e estas coisas passam a ser temporais.
Assim, o movimento como o conhecemos é o tempo, a cronologia nos deslocando de um lugar para outro. Assim é o movimento da natureza, o movimento de nossas células se desenvolvendo, o movimento do nosso desenvolvimento neuropsicológico, a aprender com o ambiente, com as experiências que representam nosso viver e a acumular todas as memórias dessas vivências, o que constitui nossa vida.
Temos assim, um movimento, atemporal, que é um dos fatores da existência do estado vida, dando origem a outro movimento, este temporal, criador do homem psicológico, preso nas malhas desse tempo, usando este tempo, que é seu passado psicológico, para entender o que existe fora do tempo. Condicionadas pela cronologia, nossas mentes, que nada conhecem além do passado, escravas de um mundo concreto onde o tempo e o espaço são soberanos, não conseguem conceber nada que não tenha início e fim, é a lei do movimento, movimento cronológico, o único que ela conhece, que é ela mesmo. Ficasse apenas um instante atenta, logo perceberia que o tempo e o espaço existem de fato, mas apenas no mundo exterior, não em seu mundo psicológico, onde tudo já existe, onde o tempo não é mais necessário.
Desse modo, assim como o movimento cronológico é necessário para a evolução cronológica das coisas, esse mesmo movimento não seria capaz fazer evoluir a psique humana, pois a evolução natural da psique, que é tempo, apenas acentuaria seu grau de dependência desse tempo, e sua evolução natural seria então o completo afastamento do movimento atemporal, o único que a poderia fazer transcender essa cronologia, e voltar à sua base natural que fica fora do tempo.
Autora: Anne Marie Lucille
email: annemarielucille@yahoo.com.br
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