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Sobre Deus – Os Deuses do Homem

"Olhos que estão acostumados com a insignificância das coisas, confinados pela limitada mente daquele que os conduz, ao interpretarem a vida, reduzem a nada a imensidão do cosmos..."

Autor: Anne Marie Lucille




Não existe um centro no universo, pois isso o limitaria ao finito...
Somos animais e disso não podemos fugir, isso é real e incontestável. Racional para o homem quer significar, aquele que é capaz de raciocinar, de conscientemente pensar e a partir disso reagir. Racional significa para o homem, uma condição onde o mesmo se coloca no topo da comunidade viva do planeta. É o dominador das outras espécies, é aquele capaz de planejar, de antecipar seu suposto futuro, de se preparar para as conhecidas adversidades que a vida lhes apresenta. Possui, em detrimento das demais espécies animais, real capacidade de concatenar idéias criando pensamentos lógicos, é dono de uma memória ímpar e prodigiosa, e tem meios para conservar por tempo indeterminado, em detalhes, palavras e imagens, todos os eventos relacionados à sua vida, sendo tudo isso, algo exclusivamente seu.
Supondo que estas células de memórias, poderíamos chamá-las de Mentes Específicas ou Mentes Parciais, fossem dotadas das mesmas possibilidades ou recursos do Grande Mental, isso implicaria dizer que erros e acertos, caminhos errados ou certos, as possibilidades dualísticas que conhecemos, seriam condições naturais dentro dessa Ordem, a Grande Mental. Isto é, o caminho que o homem tomasse, estaria dentro das previsões, mas isso não significaria ordem, ordem no sentido de organização, perfeição, seria um desvio dessa ordem, mas assim mesmo algo previsto.

Depende, como todos os demais animais, da natureza para sua manutenção e sobrevida. É dela que tira seus alimentos e meios para se abrigar, mas, ao contrário dos outros, pode transformar esta mesma natureza, tornando-a assim mais favorável ao seu bem estar. Sendo versátil, pode a partir das tradicionais fontes de alimentos, criar novas variedades, o que o torna aparentemente o mais capaz animal de sobreviver a qualquer escassez de alimento. É criativo e aprendeu a sobreviver sob qualquer condição climática, pode curar seu corpo de enfermidades fatal às demais espécies; desenvolveu condições nos meios onde vive, que o permitem uma qualidade de viver incapaz de ser comparada com qualquer outra espécie viva do lugar onde habita.

Ao contrário das demais espécies com as quais compartilha o mesmo mundo, se multiplica de forma consciente, pode planejar e construir, independente de local, sua própria morada, e pode controlar, se assim o quiser, seus instintos. É capaz de conhecer racionalmente seus medos, descobrir as causas, saber logicamente porque tal condição o perturba. Aprendeu de forma lógica sobre todo o ambiente que o cerca, está consciente dos ciclos do nascimento à morte, é capaz de observar o espaço fora do seu planeta e saber o que está vendo, pode mesmo abstrair, imaginar coisas irreais, e de olhos fechados ver apenas com sua imaginação.

Possui como as outras espécies, um instinto animal primário, que o ajudou a chegar até os tempos atuais, e a se desenvolver psicologicamente à frente de qualquer outra forma viva. Seu corpo conhece bem, e deliberadamente aprendeu a dinamiza-lo, a melhor qualificá-lo para as mais diversas condições que pode um homem em vida, fisicamente ter necessidade de enfrentar. Do instinto primário conservou atributos, tais como desejo de sobrevivência a todo custo, capacidade para encontrar abrigo e alimentos, desejo sexual, necessidade inconsciente de perpetuação da espécie, violência como forma de enfrentar seus medos.

Sabe como agir no seu dia a dia; tem noção do porque assim age e também porque não age. Tem senso coletivo, mas conserva sua individualidade, pode viver sozinho ou em sociedade, é capaz de aprender, aperfeiçoar ou modificar o que aprendeu e conscientemente repassar a outros tudo que assimilou. Dentre os valores que estabeleceu com suas normas, como esteio para seus objetivos de vida, a realização pessoal é o determinante. Criou as normas e também todas as condições necessárias para estas fossem cumpridas, criou a má e a boa conduta, criou o mau e o bom homem, o feio e o bonito. Sendo a hierarquia algo necessário à ordem que imaginou como alicerce para seu mundo, tratou logo de criar todas as qualidades e quesitos que um detentor de tal encargo deveria ter. Assim, foi responsável pelo surgimento das castas dominadas e das dominantes, dos inferiores e dos superiores.

Percebendo-se mais um dentre tantos iguais, delimita-se formando pequenos núcleos que chamou de família, isolando-se daqueles que das mesmas opiniões não compartilhavam, aproximando-se daqueles dos quais algum benefício ou satisfação para si pudesse obter. Ao isolar-se, percebe que precisa desenvolver a real capacidade de comandar e controlar indivíduos, seja pela força, seja pela habilidade de se expressar, de induzir suas idéias nos menos esclarecidos. Fica motivado ao perceber que esta qualidade o torna um líder natural diante de muitos, logo um item qualificador e obrigatório dentre os concorrentes ao poder que passa a desejar.

E o poder torna-se um objetivo pessoal para cada indivíduo pensador; seja o desejo de dominar, seja o desejo de superação pessoal, seja o desejo de encontrar algo que ninguém jamais encontrou, seja o desejo de ter algo exclusivamente seu. É o poder criando um centro exclusivo em cada um, individualizando ainda mais um ser que vê na igualdade uma evidência de inferioridade. Procura agora algo que o diferencie dos demais, e a competição entre aqueles da mesma espécie torna-se uma realidade em sua vida. Surgem os quesitos negativos que caracterizam, que identificam os perdedores, e as qualidades positivas que tornam os vencedores além de uma realidade, uma forma notória de ser prestigiado.

O homem ambicioso de poder qualquer coisa entra em cena, e pela vez primeira questiona se há um limite para sua insatisfação. Faz da vida uma eterna busca de qualificação pessoal, o diferencial que o colocará no topo da hierarquia humana, ou próximo desta. Passa a ver em cada ser igual a si, um rival, um oponente, um competidor pessoal que disputa a mesma glória que consciente ou inconscientemente também deseja. Assim, de instintos que originariamente lhe dotou a natureza para que fosse capaz de sobreviver em seu mundo, transforma-os pelo poder do pensar, em armas mortais contra seus oponentes, que é todo aquele que tenha opiniões que antagonizem com as suas. Num mundo onde disputa sem perdedores e vencedores não é possível, logo o receio de perder torna-se a ordem do dia, e a violência contra os opositores uma necessidade. O conflito humano torna-se inevitável.

As conseqüências disso todos nós conhecemos. Os núcleos familiares tornam-se mais coesos e fortes, se transformam em células individuais com normas próprias, e logo todos estarão, inicialmente sem disso dar-se conta, competindo umas com as outras. Grupos afins são estabelecidos e o separatismo só cresce. Criam-se as doutrinas disciplinadoras do homem não virtuoso, criam as qualidades da virtude, as culpas que caracterizam os pecadores e os méritos que aguardam os séqüitos não contestadores da ordem. Todas as sociedades humanas passam a se apoiar na autoridade, figura de maior vulto dentre as hierarquias estabelecidas como necessárias à ordem. A segmentação das sociedades, que separa ainda mais um indivíduo de outro, cria classes sociais de todas as espécies, cria autoridades específicas para cada grupo comunitário estabelecido, e culmina por tornar necessário a existência de uma autoridade máxima, uma instância que se destaque das demais, algo a que todas outras se submetam, se curvem.

Mas, encontra-se finalmente diante do seu primeiro dilema. Como criar uma autoridade maior que todas as autoridades que já conhece? Afinal, já tem o homem suas autoridades outorgadas, que ora são aquelas que se impõem pelo poder das posses, ou pelo poder da repressão, ou pelo poder do saber, ou pela força doutrinária, ou por variações de todas estas. Como então estabelecer este poder absoluto, ao qual, todo homem, independente de sua condição ou credo, estivesse disposto a se submeter sem contestação?


Não podemos conceber Deus, pois se pode ser concebível certamente não o é...
O instinto primário do homem, sua maior angústia sempre foi e será o medo, então esta fonte de poder supremo teria que controlar a todos pelo medo. Esta autoridade, por uma questão de bom senso, não poderia ser de natureza humana, já que o próprio homem deveria a ela incondicionalmente se render. Teria que ser algo muito além desse homem, frágil, sujeito às leis implacáveis, do nascimento e morte, vulnerável ao tempo, incapaz de transcender ao próprio sofrer, absolutamente subjugado pela doença, dono de uma instabilidade emocional sem controle, insensato com seus semelhantes. Assim, à autoridade máxima possível de conceber os padrões humanos, a idéia de um ser divino, fora do alcance do ser homem, foi de comum acordo deliberado. Seria um ser com poderes superiores aos do próprio homem, capaz de controlar o presente e o futuro das realizações desse mesmo homem, de dominar e transcender os ciclos de morte e vida, capaz até de controlar as vontades humanas, de transformar o homem num piscar de olhos, de dotar o homem de vida eterna em troca de obediência.
E surge a divindade, e em seu lastro todas suas qualidades, qualidades estas semelhantes às humanas, o que seria justo, já que deveriam servir mesmo ao homem. E as maiores virtudes atribuídas ao mais virtuoso homem, receberam qualificações máximas ao serem instituídas como necessárias ao estado de pureza, qualidade obrigatória à redenção e perdão das culpas, tudo isso em obediência a um critério definido supostamente pela vontade das divindades. Criou o homem a idéia de uma busca que o levaria à glorificação ante os deuses criados por ele mesmo, e cada nação, a cada tempo na história adotou o mesmo padrão. O respeito, e a reverência às divindades, torna-se uma reconhecida forma de humildade, aceita isso como uma virtude que dará suficiente qualificação ao praticante, de alcançar a santidade que chamou de iluminação.

Assim, o homem supostamente racional, torna-se irracional ao se auto intitular senhor de todas as espécies vivas do planeta. Cria deuses semelhantes e ele mesmo em vontades e necessidades, semelhantes em aparência e gostos pessoais, donos de uma justiça cujo modelo o mesmo homem definiu e outorgou. Cria deuses prisioneiros do tempo, tempo que é a única condição que ele mesmo conhece, e loucos por desconhecerem sua própria origem, atribuem a estas mesmas divindades, divindades estas que acabaram de homologar, tão intrigante causa.

Se antes o mais perfeito dos homens era aquele reconhecido pelos homens, agora cria o ser humano, a desejada alegoria do homem mais que perfeito; o santo, por ser além de idolatrado pelos homens, reconhecido pelos deuses. Surge, com mais ênfase que nunca, a virtude como pré-condição ao estado de glorificação, estado este que inclui reconhecimento público humano e também das divindades. O que conhece o homem como idéia de mérito, que são as recompensas materiais, estas condições passam a diferenciar o profano do santo, o pecador do virtuoso, o miserável por não ter méritos, daquele agraciado por ser abençoado dos deuses. Logo os tiranos, donos do poder pela opressão e genocídio, corruptos da ostentação pela miséria e exploração alheia, se intitulam de dignos de tais méritos, e a riqueza e distinção social se tornam sinônimo dessa bem aventurança.

E a competição e o homem ambicioso são reconhecidos como condições válidas a aqueles que poderiam se intitular de os escolhidos. A busca por algo que chamam de o objetivo supremo de suas vidas, passa a fazer parte de suas projeções para o futuro. Reflete, se tudo conquistei em terra e continuo vazio e angustiado, deve haver, nessa idéia de céu que criei, algo digno de minha pessoa, algo realmente espetacular que desejo, e como glorioso que sou, mereço experimentar.

Dono de um intelecto admirável dentre as espécies que com ele coabitam o mesmo espaço físico, não consegue explicar suas próprias contradições. Cria deuses piedosos dispostos a perdoá-lo, quando ele mesmo não consegue perdoar o próprio irmão. Alardeia a virtude do respeito à vida, quando oprime os mais fracos ou declarados inferiores, amparados pelas instituições sociais que lhe dão respaldo e tornam válida sua insensatez e incompreensível crueldade.

Felizmente conhece apenas seu mundo, o qual pode deformar a vontade, no qual pode desejar e pode conquistar os melhores e maiores méritos, dos quais em vida logo se enfastiará, o que o arremessará numa busca vã e infinita de algo que o satisfaça. Terá para sempre a angústia da incerteza, incerteza de saber no fundo, que o mundo de ilusões que criou para si, é apenas uma fantasia, uma brincadeira mórbida, ainda assim temporária.





Autora: Anne Marie Lucille
email: annemarielucille@yahoo.com.br






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