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Reflexões Sobre o Tempo
"Tempo é a distância entre dois pontos eqüidistantes um do outro; um representando o início, e o outro a origem desse início..."
Autor: Anne Marie Lucille
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Não precisamos de tempo para perceber quando vemos o que é belo...
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O grito solitário de um pequeno gavião, escondido no topo de uma secular e frondosa figueira, às margens da estrada que era nosso caminho diário em direção ao vilarejo, tornavam aquela manhã absolutamente nova. O tom de lamento do seu canto, anunciava a mudança no tempo que se prenunciava. No horizonte distante, pesadas nuvens negras começavam a se organizar lentamente, mas num ritmo constante, preenchendo todos espaços vazios no céu. Aquela tempestade, desde muito aguardada por todos, decerto traria alegria e fartura àquela pobre gente que vivia da agricultura. Os riachos iriam transbordar, deixariam de existir por um tempo, se transformariam em caudalosos rios, que logo, com a passagem das águas, sucumbiriam, se tornando riachos outra vez.
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O que é novo para o homem, por tradição, se opõe ao passado, contesta e afronta a herança dos ancestrais, ameaça a autoridade dos dogmas tradicionais cultivados pela cultura, pela certeza do conhecido. Repetindo o que já repetiram seus avós, procura o ser humano, respostas para aquilo que desconhece. Desconhece porque não faz parte da sua tradição, não pertence ao mundo lógico da certeza absoluta, não está referenciado em seu passado, seguro, já praticado antes pelos outros, já sedimentado pela experienciação da cultura onde nasceu e se criou. O tempo representa aquilo que ele conhece, e embora muitas vezes possa não se dar conta desse tempo, percebe que os anos passam, porque ele e os outros à sua volta envelhecem, porque existe o amanhã e o ontem, porque as coisas se transformam diante dos seus olhos, e isso é cronologia, início e fim de alguma coisa, e é o único tempo que ele concebe, talvez porque seja o único que existe, e os outros possam ser apenas criações suas.
O homem, o projeto homem, sua arquitetura biológica, isto certamente que não representa algo novo. É algo que já existe na natureza em abundância, são genes ancestrais cuja morfologia já conhecida, se reproduz espontaneamente desde que as condições adequadas para isto estejam presentes. Assim, a condição humana certamente que não é um projeto novo, trata-se de um movimento orgânico conhecido onde a vida se manifesta, se manifesta em um estado sempre novo, mas num veículo antigo. Antigo em projeto, novo porque ao receber o dom da vida, organicamente é um ser recente.
Há então um padrão, o projeto humano. Sua fisiologia, a morfologia de suas predisposições genéticas, as propriedades que o caracterizam como um ser de gênero humano. Dentro de sua fisiologia há o aspecto psicológico que o diferencia - devido a sua capacidade de pensar - de todos os demais animais, os chamados irracionais, apesar de seu protótipo também ser de natureza irracional. O tempo cronológico como o conhecemos, só conhecemos este tempo, se encarregou de transformar o homem quase irracional, no ser pensante que hoje se apresenta, mas isso não teria sido possível, se o projeto homem já não tivesse inato, previsto em sua estrutura, tais predisposições fisiológicas, ou genéticas.
Assim, o tempo exerce seu papel de transformar o homem, transformá-lo no que somos hoje, físico e psicologicamente. Se não pode existir o indivíduo psicológico sem o veículo físico, então ambos são uma só coisa. Mas sabemos que o homem se desenvolveu anatomicamente ao longo das eras. Mudou o aspecto e a capacidade de adaptação do corpo, ganhou maior capacidade cerebral, maior capacidade para armazenar informações e conseqüentemente pensar melhor. Mas se de um lado ele evoluiu fisicamente, será que também evoluiu psicologicamente com o passar dos anos? Sabemos que sua estrutura cerebral mudou, se tornou maior, mas sua fisiologia neuropsicológica, será que esta evoluiu ou é capaz de evoluir com o tempo?
Psicologicamente o que é o homem senão uma herança de tudo que já foram seus ancestrais, de tudo que já foi ou será sua cultura, com suas tradições e crenças, de tudo que sua capacidade de personificação é capaz de assimilar? Com o tempo, o cérebro humano, ganhou maior volume para armazenar suas memórias. Esta mudança teria que ser uma predisposição natural, ou seja, este aumento no volume só seria possível se o mecanismo estivesse pronto para suportar tais modificações. Não poderia ser ao contrário; primeiro vem as mudanças físicas, depois o aumento de capacidade, pois desse modo, o núcleo não estaria capacitado para manipular, para administrar tal quantidade de informações.
Mas surge uma questão: Esse recipiente, antes de pequenas proporções, com o tempo, isto é, com a evolução anatômica da espécie, agora que se torna capaz de suportar grandes volumes de informações, o que significa um progresso; teria também evoluído psicologicamente? Sim, porque ser capaz de armazenar memórias é uma coisa, isso ele já fazia antes; disso ele já se valia antes para sobreviver. Afinal, como o animal que era, ele já pensava, ele já sentia medos e angústias, isso ainda quando era limitado em volume. Se enquanto limitado em volume ele já pensava, então sua capacidade de pensar já existia, não surgiu a partir do momento em que amplia sua capacidade de guardar mais informações.
Sendo pela natureza da espécie, um animal com a habilidade de articular pensamentos, independente do aumento do seu repositório de memórias, o homem já pensava mesmo antes da evolução natural do volume do seu cérebro. Certamente já se angustiava com o futuro, já tinha seus medos, já planejava seu abrigo e caça. Aumenta a capacidade de guardar informações, o que quer dizer mais alternativas, mais escolhas, e isso lhe dá uma maior versatilidade para sobreviver em seu meio inóspito, maior adaptabilidade, cria as condições para que possa pensar mais, de forma mais elaborada.
Mas e o centro que controla tudo isso, que é o mesmo que antes, diante de um recipiente com poucas informações também já pensava, já sentia medos, já sofria com a incerteza do dia seguinte, do futuro? Este também evoluiu, deixou de pensar sobre tais coisas, ou apenas se sofisticou, multiplicou as formas de pensar sobre estas mesmas coisas, ou apenas aumentaram as escolhas para este mesmo centro administrar?
Sabemos que o tempo está presente em nossas vidas, em todos os nossos momentos, quer estejamos em atividade ou não, aprendendo ou estagnados. Conhecemos o tempo como ele se apresenta, aquele que podemos ver, medir cronologicamente, aquele representado pelo intervalo que há entre dois pontos eqüidistantes um do outro, isto é, a quantidade de dias, horas, minutos ou segundos, que levamos para percorrer uma distância.
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Sou, não sou, são ações que se movem de um ponto inicial para um ponto futuro, é tempo. O tempo que é medido entre aquilo que somos e o que gostaríamos de ser, este é apenas psicológico. Para mudar, deixar de ser alguma coisa, deixar de ser o que atualmente somos, quando percebemos o que realmente somos, estamos usando o tempo, o tempo cronológico. Mas este não se aplica aqui, pois tal percebimento, tanto daquilo que sou, quanto daquilo que gostaria de ser, é imediato, é minha realidade atual, está em mim nesse momento, e perceber isso não requer intervalo de tempo, como o fazemos nas ações externas onde o tempo cronológico é necessário.
Assim, o intervalo entre o que somos nesse momento e aquilo que gostaríamos de ser em outro momento, não existe, é um tempo imaginário, e não preciso dele para perceber estas duas coisas; o que sou e o que gostaria de ser; e se desejo mudar, posso fazê-lo na hora em que percebo isso, sem deixar para outro dia. Outro dia não me faculta analisar melhor, o que nesse momento já percebo, não é um percebimento gradual, não há necessidade desse futuro, desse adiamento, uma vez que percebo claramente isso nesse presente momento.
O tempo deu ao homem, aumento na capacidade de guardar informações, lhe deu mais subsídios para elaborar pensamentos mais complexos, mas como o mecanismo gerador de pensamentos não progrediu com este mesmo tempo, ele apenas criou às necessárias condições para aumentar e diversificar suas angústias e medos. Com o tempo, o homem ficou mais angustiado, pois o desejo de ser algo diferente daquilo que é, que antes era limitado à poucas opções, transformou-se em milhares.
A evolução do centro não pode ter seguido o mesmo progresso anatômico do cérebro, pois ele não se trata de uma entidade física como o outro, e sim de apenas um aspecto operacional do mesmo, independente de tamanho para operar. Ele sempre existiu independente de tamanho, da quantidade de informações, ele é o aspecto encarregado de, diante das poucas informações que percebia, agir, agir sem muitas escolhas, uma ação mais próxima da realidade. Eram poucas necessidades, apenas as básicas, e poucas escolhas para responder da forma adequada a elas.
Assim, diante de poucas escolhas – ele sempre existiu para operacionalizar a sobrevivência do veículo diante das condições apresentadas – agia sem a necessidade de refletir muito, eram mínimas as alternativas, não precisava escolher muito para realizar algo, era quase ação imediata. Com o aumento da base de dados, aumento do volume cerebral, apenas se vê agora diante de muito mais alternativas para realizar a mesma coisa, e isso o coloca numa situação crítica; haverá maiores possibilidades de cometer erros, o que não havia antes. Sendo ele o censor, o crítico, o que decide sem depender de nenhuma instância, o que antes era ação, passou a ser apenas uma reação suscetível de erros diante de tanta diversidade. Desse modo, o tempo lhe tira a liberdade de ação, aumenta seu sofrimento e o transforma numa fábrica de conflitos.
Assim, vive o homem fragmentando sua vida em ciclos. Não consegue viver integralmente, não aceita que ele não se resume apenas ao momento atual, sua atualidade, mas antes, esta mesma atualidade é resultado do seu passado. Um dia, na sua mais remota infância, ele aprendeu a andar, um dia ele aprendeu a ler, e isso ainda hoje está presente em sua vida, isso ele não adquiriu na atual fase do seu viver. E assim, ao longo do tempo, cometeu erros e acertos, teve tristezas e alegrias e isso tudo tem como resultante o ser atual. Não é o homem atual apenas a parte representada pelo momento presente. Goste ou não, negar o passado é viver fragmentariamente, viver parcialmente uma farsa psicológica. Trata-se apenas de um ator exercendo um papel simbólico, interpretando um ser imaginário sem passado, que surgiu do nada, como no mito do pássaro que renasce das cinzas. Mas o pássaro não nasceu das cinzas, e o que eram essas cinzas senão seu passado?
A tradição é um símbolo que exerce grande pressão sobre o homem, e pela repetição, perdeu sua origem no tempo, transformando-se em modo de vida, uma completa maneira de viver, de reagir, determinando até caracteres genéticos para as futuras gerações. Um hábito alimentar por exemplo, pode suscitar adaptações, modificações, readaptações antes não existentes, do aparelho digestivo, que passarão de pais para filhos. Assim, determinados alimentos passam a ser suportáveis se adequando a uma prática tradicional, e os filhos daquela comunidade, já poderão nascer com aquela predisposição bem caracterizada. Assim também são os símbolos instituídos pelo tempo, sobre os quais a tradição se sedimentou. Estes se tornam objetos já incorporados àquele ser local, e mesmo que ele não cresça em tais ambientes, terá uma predisposição natural para sentir-se atraído por tais práticas, onde quer que esteja, inclusive em outra cultura.
São os símbolos, produto do tempo, o esteio onde o condicionamento, que é o próprio homem, que diferente da Mente, se transformaram na base da mente da humanidade, mente egocêntrica, distante da Mente mãe, que elegeu o centro do tempo como seu senhor.
Autora: Anne Marie Lucille
email: annemarielucille@yahoo.com.br
Notas:
[1] -
A autora é colaboradora eventual do nosso site. Mais artigos dela podem ser vistos em:
http://www.sitededicas.com.br/dicas.htm
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