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UM
O tempo não existe onde há atenção...
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O observador é o tempo
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O tempo não pode existir no presente, pois para poder ser percebido, precisa de evidências concretas, e o concreto só existe porque já foi construído, está assim permanentemente no passado.
Ao caminharmos em direção a algum destino, são certamente nossos passos contínuos a causa e o efeito a serem alcançados. Se o efeito é resultado de uma causa qualquer, a nosso destino podemos chamar de efeito, e nossos passos da causa que nos conduzirá ao mesmo. Passos sempre contínuos, carecem de boas pernas, além de boa disposição física. Não podemos imaginar um caminho plano, por curto que seja, que possamos percorrer sem que o tempo não nos acompanhe. Além do tempo, o caminhar exige passos sempre progressivos, pois não podemos pensar numa caminhada, que tenha como propósito nos aproximarmos de um ponto eqüidistante daquele onde nos encontramos, sem que nossos passos não sejam progressivos.
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A continuidade torna nosso caminhar mais consistente, permite que possamos a cada passo dado, compreendermos que a distância entre dois pontos opostos, é o próprio espaço a ser percorrido. Normalmente só vislumbramos o destino e nunca contamos que o ponto inicial é um oposto do outro. Se virarmos às costas para qualquer direção, estaremos outra vez na mesma situação: um ponto de origem e um destino a ser alcançado. Pode parecer redundante e óbvio demais, mas não é bem assim. Compreender que a linha divisória de uma coisa é a própria divisão, pode não ser uma coisa tão simples quanto parece. Intelectualmente pode ser óbvio e até infantil, mas sentir essa verdade emocionalmente é coisa bem diferente. Para nós, pode parecer óbvio, o fato de que um medo tenha alguma causa externa, mas quando compreendemos que a causa já é o próprio medo, que sem a causa não existe o medo, começamos a pensar de uma forma mais flexível.
Sempre que houver um espaço a ser percorrido, isso nos põe na dependência do tempo. Mas se o nosso destino é um ponto localizado no futuro, já que uma distância a ser percorrida só poderá ser alcançada no futuro, este pondo nunca poderá ser alcançado. Chegando lá, ele já terá se deslocado mais para frente, pois para que fosse possível alcançá-lo, o tempo teria que parar. De um ponto inicial, idealizamos uma meta qualquer, e assim, nosso passo seguinte é caminhar em direção a esse objetivo; isso é simples e óbvio. Supondo que tenha a pretensão de beber um copo de água, assim, alcançar o copo com a água é a minha meta. Ao mover meu braço para alcançá-lo, estarei caminhando em direção a ele. Supondo que continue a caminhar poderei então alcançá-lo. Mas, no momento em que minhas mãos o tocarem, ainda estarei no passado, pois já alcancei a meta, e uma meta só pode ser alcançada no passado, jamais no futuro. Não
podemos tocar algo que está no futuro, só o que está no passado.
Desse modo, sempre que descobrimos algo novo, na verdade só o podemos fazê-lo dentro do espaço tempo, e isso nunca poderá ser novo. O tempo não pode existir no presente, pois para poder ser percebido, precisa de evidências concretas, e o concreto só existe porque já foi construído, está assim permanentemente no passado. Se o tempo é o concreto, aquilo que é atemporal só pode ser alcançado fora do concreto. A linha contínua que é projetada sobre o espaço tempo, não pode ser uma linha reta, pois ela pode se projetar para qualquer direção que apontem os nossos passos. É reta apenas no sentido que ora caminhamos, mas está sempre se quebrando em seguida para seguir outro rumo. Assim, será sempre um caminho tortuoso, que nos levará a um destino incerto, acidental. Se caminhamos por uma estrada que muda ao sabor dos ventos, nosso destino será sempre incerto.
Se um caminho tem no tempo o seu existir, ele só será capaz de nos conduzir, de um ponto no passado para outro ponto do passado. Como podemos caminhar sobre alguma coisa que ainda não foi construída? Não podemos. Se estamos presos ao passado, nada de novo poderá ser acrescentado à nossa existência. Pode ser novo para nós em termos de conhecimento intelectual, mas não é para aquele que nos ensina. Podemos concluir então que no tempo, só podemos construir o que já existe, e isto é modificar o existente. Isso nos faculta a perceber que a solução para os problemas do homem, que também são os nossos, não podem ser solucionados a partir do tempo. Ao operar de dentro do tempo ele apenas estará repetindo, e repetindo as mesmas coisas, e no máximo alterando aquilo que já existe nesse tempo.
Mas se somos seres temporais, e se ao nos olharmos no espelho estamos na verdade olhando para algo já construído, isto é o passado; e se todos os nossos problemas existenciais estão relacionados a esse passado, como podemos resolver tal questão? Se de um lado temos o homem e a sua angústia pessoal, não podemos imaginar este mesmo homem quando criança, como um repositório de todos estes problemas que agora vivencia. Se os problemas já existiam antes dele nascer, é claro que ele não criou nenhum deles. A propósito, aquilo que nasce só pode nascer onde já existe uma base que possa ampará-lo, segurá-lo; e o nascido já nasce de outro nascido antes dele. Isto significa que, o homem já nasce a partir de um passado, pois já nasce de um já nascido antes dele; sobre um mundo também já construído, portanto, que foi construído antes dele; é tudo passado. Isso quer dizer que ao nascer, ele já é passado, e estará para
sempre no passado. Ao completar uma nova idade, só pode completá-la, no momento que passou.
Isso pode nos levar a concluir que as respostas, para suas angústias existenciais, não podem estar nesse passado, não podem fazer parte dele, ou tudo já teria sido resolvido; afinal de contas, o mundo não existe a partir da data do nosso nascimento. Mas, se todos os nossos problemas existenciais tem no passado sua base, e se nada de novo podemos criar a partir desse passado, uma vez que o passado só é capaz de repetir o próprio passado; qual a saída para isso tudo; como podemos nos libertar desse círculo de repetições incapaz de eliminar o nosso sofrimento, nossos medos e ansiedades? Será que podemos de fato nos livrar dessas coisas, ou tudo não passa de uma ilusão dentro da outra ilusão; uma fantasia criada a partir da nossa ilusão de que tudo podia mudar para melhor?
Fica claro que o tempo não tem a solução para nossos problemas. Não pode o problema ser sua solução, ou pode? Estudando um problema podemos ver qual a sua origem; mas a origem do problema não é o próprio problema? Supondo que uma fruta se estrague por falta de conservação adequada; ela estragou devido a uma condição que atuou de fora para dentro dela, ou ela apenas reagiu às condições que já existiam lá fora? Assim, o fator decomposição da fruta, é diferente dela, ou é a própria fruta? O que caracteriza um tijolo de barro partido ao meio, senão o próprio fato de estar partido ao meio?
Autora: Ester Cartago
email: estercartago@yahoo.com.br
Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
Notas:
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A autora é Pedagoga e pesquisadora de filosofia oriental.
Veja mais artigos da autora em: http://www.sitededicas.com.br
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