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A Unicidade e o Tempo
O tempo existe para que possamos compreender o que é o Não-tempo...
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O observador está sempre no tempo
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A Consciência da unicidade só pode ocorrer onde existe a divisão, uma vez que a própria divisão é a parte, e é aquilo que se percebe como parte. Se o todo não pode perceber-se por não haver parte a ser percebida, logo a parte é essencial para que possa ocorrer o percebimento.
Refletindo sobre aquilo que para nós é temporário, logo isso nos evoca a idéia do permanente. Se a idéia da permanência sugere o eterno, isso caracteriza bem que no seu oposto há aquilo que não é eterno, quer dizer transitório. O eterno para nós significa algo que terá uma duração infinita, que existirá enquanto existir o tempo. Sim, porque esse eterno faz parte do tempo, uma vez que se opõe ao temporário, e tem uma duração, mesmo que se autodenomine infinito. Mesmo esse infinito que para nós sugere a eternidade, por se opor ao finito, tem no próprio tempo a síntese da sua existência. Não existindo tempo, nada disso faria sentido algum.
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Assim, infinito, eterno, temporário e todas estas coisas, são medidas que se prestam a legitimar o tempo como uma realidade, dar-lhe um lastro, um alicerce sólido o suficiente para que possa existir materialmente. A idéia da eternidade fascina ao observador, porque o mesmo se imagina na possibilidade de transportar aquilo que atualmente é ou possui, ao longo do tempo, sem nada perder, nem mesmo a juventude que tende a ser restaurada num ponto qualquer dessa linha. Preocupa-o, sobretudo, perder o que acumulou; suas conquistas pessoais, tais como lembranças, os pontos de identificação aos quais se apegou, e que lhe dão identidade e segurança, e a sensação de individualidade. Isso acaba por lhe passar a idéia de que o objetivo que julga ter, é importante e necessário.
Não consegue perceber que seu objetivo, que qualquer proposta que parta do seu Ser racional, tem a mesma base de todos os outros, e trata-se apenas de uma atividade mental autônoma, involuntária ou mecânica. Esquece que todos, sem exceção, compartilham das mesmas fontes que alimentam suas memórias, que transformam suas lembranças em um Ser com passado e presente, e que julga ser único. Não consegue assim ver com clareza, que na verdade não é único, e sequer existe como forma original; que apenas reflete o que todos os demais também refletem, tendo como único diferencial o tempo de acumulação de cada um; como se fora um computador novo que ainda não possui todos os aplicativos existentes, a despeito de um mais antigo que já possui. Não há diferença, é apenas uma questão do ponto, de onde cada um observa uma mesma coisa.
Esse ponto, criado no tempo, é o tempo de origem daquela mente mecânica que, sintetiza como informação tudo que os sentidos autônomos podem captar, interagir, absorver e sentir, a partir do mundo à sua volta. É o ponto onde se localiza o observador das coisas que acaba por se transformar naquilo que observa. Ao sentir um medo, passa a ser esse medo, ao sentir raiva, passa a ser essa raiva, um veículo executor, através do qual, tais estados passam a existir e se expressarem como ação.
Assim, ao criar o infinito a partir do seu oposto finito; ao criar o eterno a partir do seu oposto temporário, também não se dá conta, que em momento algum deixou de lado a idéia de tempo, pois é o único campo onde consegue atuar. Não é capaz de perceber o quanto há de contradição nos próprios termos criados, para ilustrar uma condição que ele não tem como conceber. Sendo o tempo sua medida e raio de ação possível, jamais seria capaz de compreender o vácuo de sua ausência como a única condição existente. Perceber o atemporal a partir do tempo, poderia ser comparado ao agricultor que sem plantar, espera colher uma grande safra apenas porque sonhou.
Algo diferente de tudo que se localiza no eixo do tempo, não é de fácil compreensão. Fomos condicionados pela estrutura física dos nossos pensamentos, a construir para poder ver, e como só somos capazes de construir aquilo que já existe, o que é imitar, somos completamente dependentes do tempo. Existência é tempo, é uma expressão do passado, e é até onde nossos sentidos e compreensão são capazes de ir. O estado de ser de uma coisa, difere do estado de como aquela coisa se apresenta para nós. Vemos o que julgamos ver, o que nosso temperamento e condicionamento, que é o ponto de observação, nos facultam a ver, medir, classificar, interpretar, e por isso mesmo, por serem criações nossas, podemos lhes dar nomes.
A interpretação depende do tempo, pois além de avaliar o passado, ela nunca é definitiva e está sempre se modificando, à medida que nossos conhecimentos sobre aquela coisa avaliada se ampliam. Desse modo, nunca avaliamos o estado de ser de uma coisa, mas apenas aquilo que no momento nos parece ser, e isso que nos parece ser, representa nossa idéia passada sobre aquela coisa. Ampliam-se nossos conhecimentos, muda-se nossa compreensão daquela coisa, mas não muda a coisa. É uma compreensão parcial, e isso não é compreensão, trata-se no máximo de uma impressão transitória. O estado de ser de qualquer coisa, é independente do tempo, e exatamente nesse ponto, começam nossos problemas de compreensão, uma vez que nossa mente analógica só consegue enxergar as coisas por comparação, e a medida está sempre na dependência do tempo.
Comparamos entre o que julgamos ver, e algo que tenhamos como lembrança, não pode ser diferente disso; comparar é isso. Uma lembrança é produto do passado, algo que foi adquirido antes. Algo que ao longo do tempo, ganhou novos caracteres e realces; algo que ao longo do nosso viver passou por inúmeras transformações, até chegar a um ponto em que o julgamos satisfatório para usar como referência para nossas análises; é puro tempo, retrata o passado integralmente. Quando há comparação entre dois critérios, é certo que o resultante dessa análise ainda será incompleto, pois não representa o estado de ser de coisa alguma, mas o estado que podemos ver a partir do centro de nossas medidas.
Supondo que possuímos todo o conhecimento do mundo, e ainda assim, isso refletirá apenas uma transição desse conhecimento, uma vez que será sempre parcial, incompleto, pois sempre haverá algo desconhecido, algo a ser acrescentado ao que já sabemos e existe. Por depender do tempo, o conhecimento está sempre acrescentando mais a si mesmo, e nunca será capaz de parar, ou de definir o que podemos chamar de seu limite, um ponto onde possa afirmar que nada mais há a acrescentar. Ele é incapaz disso, pois entende que a cronologia que rege todas as coisas materiais, também rege a quantidade de saber que precisa acumular; o que também sugere que nunca haverá um ponto final, pois isso representaria o fim do próprio tempo, seu próprio fim.
Autor: Jon Talber
email: Jontalber@gmail.com
Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
Notas:
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O autor é Professor e pesquisador das ciências filosóficas.
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