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A Lógica do Sofrimento - Os Fundamentos
Autor: Jon Talber
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A estreita trilha de barro que conduzia ao pequeno vale, era um desafio ao mais hábil motorista, pois no caminho, pequenos riachos, cuja profundidade era sempre um mistério, obrigava o guia a descer do automóvel, para com um pequeno galho escolher a melhor passagem. Era uma oportunidade a mais para contemplar tão encantador e pacífico lugar, onde uma brisa constante, com um cheiro indefinível de mato fresco, reverenciava aquelas primeiras horas da manhã. As pessoas que ali moravam, viviam basicamente daquilo que plantavam e em quase nada dependiam da capital. Pequenas usinas com geradores eólicos providenciavam toda energia elétrica de que necessitavam, e assim viviam aparentemente em harmonia, sem muitos problemas sociais, sem a pressa dos grandes centros.
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O sofrimento parece não existir fora do tempo, tempo que criou o homem como o conhecemos, tempo que é o próprio homem que busca uma felicidade por ele idealizada, que fez do tempo a busca de um abrigo definitivo contra as insuportáveis amarguras que roteirizam seus passos, que com a própria vida, já no momento da concepção, na mulher se faz presente.
O que é a vida para aquele que vive, que se apega à rotina da angústia, que não vê a esperança por ele sonhada se concretizar, que confia nos caminhos que outros para si traçaram, que sofre por não conhecer seu futuro, que se agita diante de acertos do passado, que ora julga como erros; que chora diante do espelho evidenciando o tempo que demoveu, contra sua vontade, toda sua vaidade, que idealiza uma vida plena, mas que muitas vezes duvida se isto é real, pois desconhece os muitos rumos que esta pode tomar?
Realização é tudo que deseja este ser, mas diante dela poderá reconhecê-la? A paz ele procura como uma realização, mas como pode algo que ele desconhece ser alcançado através do esforço e da construção de ideais externos? Posso me transformar pelo simples querer quando este está condicionado a alguma coisa? E se me falta tal coisa, o que será do meu querer?
Em busca de abrigo e segurança as paredes que separam os homens foram criadas, as castas e as trilhas que conduzem ao sucesso também, os meios pelos quais nos tornaríamos virtuosos foram instituídos como o maior galardão que poderia a vida a alguém proporcionar. A vida se torna então uma mera lista de quesitos, algo baseado num esquema organizado, que devemos preencher para conhecermos, conquistarmos, uma suposta plenitude, a felicidade parametrizada pela instituição humana, uma meta que se torna a luta de cada um, cada um que pretenda subir as escadas que conduz, caso cumpra fielmente as regras, ao desejado, cobiçado êxito ou paz, como queira chamar.
Alcançada a paz, vem o sentimento de que aquilo tudo um dia a morte levará. Recomeça a jornada agora para transcender o fantasma da morte, e este certamente, se tornará um formidável problema em nossas vidas.
A vida é algo espontâneo, sem explicação alguma, não causadora de problemas, a não ser para quem está vivo e ao invés de viver, a ela se apega. Os motivos que os seres vivos racionais decretam para seu viver, como norma, certamente que não são as razões da vida, pois esta não tem motivo algum. É a vida um mistério, que regras sociais, dogmas religiosos ou roteiros científicos não conseguem explicar, que não está acondicionada à norma alguma criada pelo homem, o que atormenta a todos por não terem absolutamente nenhum controle sobre sua origem.
Dor, sofrimento, tristezas e conflitos, sentimento de perda, fazem parte dessa norma que criou o homem como Ideal de vida. Livrar-se de tudo isso, que ele mesmo criou, torna-se então um paraíso projetado, e nessa inútil busca, estará disposto a qualquer tipo de sacrifício. Como posso deixar de sofrer, se em tentando me livrar do sofrimento, estou me sacrificando? Posso sofrendo me livrar do sofrimento? Certamente que não, sofrimento só conduz a mais sofrimento. Não posso encontrar uma luz que não conheço, dentro de uma escuridão conhecida.
Em busca de um motivo para viver o homem criou seu próprio objetivo de vida, e desde então passa a viver de promessas. Viver pode não ser nada disso que a instituição formal da vida para nós determina, pode não ter objetivo algum, e ao mesmo tempo, pode ter todos os objetivos que conhecemos, mas presos a um padrão que decreta como devemos viver, nunca estamos livres para descobrirmos o que para nós é a vida.
Sofrimento certamente que não é uma condição para o viver, é uma condição do viver humano. Sendo assim, torna-se uma condição que faz parte da norma da vida, torna-se simplesmente um dos quesitos do viver que o homem criou, mas isso não quer dizer que seja necessário em nossas vidas. É um mero instrumento que passa a indicar o nível de esforço que fazemos para conquistar alguma coisa, representa a intensidade, o tamanho do sacrifício, o preço que estamos dispostos a pagar em troca de algo que desejamos muito. É a moeda que as doutrinas religiosas fixaram como necessária à redenção, que transforma em decreto a barganha como passagem para a luz.
Assim, o medo de não conseguir obter passa a fazer parte dos nossos dias, a angústia da dúvida nos faz sofrer, nos enfraquece o sentimento de que por alguma razão desconhecida não somos merecedores da paz tão sonhada. Ora, quem criou às regras para a paz se não foi o mesmo ser que criou a violência. A violência conhecemos sua origem, sabemos como se manifesta, temos total ciência de suas causas, e sobre a paz sabemos o que? Será que conhecemos como se manifesta? É a paz um estado natural ou uma condição determinada pela lei do homem, uma norma que possa ser instituída e por força de uma resolução ser cumprida?
Uma coisa é um estado próprio do homem como é a violência, outra coisa completamente distinta e sem relação alguma com este estado é a paz. A paz não tem causa, é um estado de amor, sem origem, sem regras, misteriosa como o dom da vida, sublime como verdadeiro estado de amar. Para tudo que criamos podemos instituir regras. São as normas de uso, as prescrições, as orientações conforme podemos ler nos manuais, mas para algo que não foi criado pelo homem, não é possível padronizar, e se o fazemos, ou é por ignorância ou por maldade deliberada; pode ser o desejo de manipulação da vontade alheia, o controle exercido à força pelo poder das hierarquias estabelecidas.
A vida é um movimento dinâmico não sujeito às regras, é um estado gratuito sem finalidade conhecida alguma, e se criamos o sofrimento como norma de vida, precisamos refletir se isso é necessário ao nosso livre viver. Sabemos o que é o sofrimento, podemos não saber expressá-lo, mas certamente quem sofre sabe bem o que ele representa. É um estado que pode vir ou não acompanhado de dor física, mas que psicologicamente tem sua própria forma de pesar. Podemos entorpecer nosso corpo para dele, de todo esse sofrer, temporariamente nos livrarmos, mas passada a letargia da medicação, logo ele estará de volta.
Ao nascermos nada sabemos do mundo que temos pela frente, das normas que estreitam nossa visão dessa vida, dos limites que as ideologias e convenções sociais com suas resoluções intelectuais preconizaram como o modo de viver correto, das condições que criaram e alimentam todos os nuances do sofrimento humano, mas logo seremos mais um elemento a alimentar essa cadeia de angústia sem fim. Logo na primeira infância somos, às pressas, condicionados a imaginar a vida como uma forma de se obter recompensas, que a vida é um presente que nos prepara para um presente ainda maior, e começa nossa angústia em busca dos melhores resultados que nos facultem a essa tão desejada Glória.
Competimos, nos isolamos em blocos familiares, criamos nossa própria forma de chegar lá, nos distanciamos uns dos outros defendendo nossa individualidade como se fosse nosso bem mais precioso, criamos antagonismos formidáveis ao imaginarmos que o mundo seria melhor à nossa maneira, e os conflitos para ver qual opinião prevalece será o nosso futuro caótico e violento. A vida certamente não é o ser vivo que a hospeda, que apenas tem em si temporariamente este dom, mas algo muito maior e de natureza única. Ela não é algo individual ou coletivo, é um estado natural sem origem e sem fim, que existe, sempre existiu e existirá, e isso não depende de normas ou opiniões de quem quer que seja, em tempo algum, em condição alguma.
Podemos explicar a fisiologia de um ser dotado de vida, mas isso não tem relação alguma com o entender o dom da vida. Ao criar normas e punições como regras para um suposto viver correto, o homem criou em seu lastro, a violência e o conflito, causas que irremediavelmente o conduzirão ao sofrimento eterno.
Autor: Jon Talber
email: jontalber@gmail.com
Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
Notas:
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O autor é Professor e pesquisador das ciências filosóficas.
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