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O Princípio da Simultaneidade
Autor: Jon Talber
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Há um tempo que podemos observar, e este tem como única finalidade nos dar a oportunidade de nos conhecermos. Se para o conjunto as partes representam ele próprio, então as partes é o todo.
Não há uma diferença marcante na biologia dos seres vivos de uma mesma espécie. Uma ou outra habilidade individual que se destaque, refletem mais o ambiente ou as condições sob as quais cada um foi criado, ou se desenvolveu, do que como sendo uma característica biológica capaz de torná-los diferentes uns dos outros. Como uma pedra que fisicamente muda de composição conforme o ambiente onde se desenvolve, sem que isso mude sua natureza de “pedra”, também um ser vivo se adequa fisicamente conforme o meio onde se vê inserido; mas isso de forma alguma quer dizer que ele deixou de pertencer a uma espécie para se transformar em outra.
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São semelhantes os seres humanos entre si, pois não diferem em composição orgânica e biologia. Cor dos olhos, compleição física, alguma deficiência orgânica, nada disso constitui de fato uma diferença biológica entre os seres, uma vez que seus processos internos se baseiam num mesmo princípio. Um cérebro menor e outro maior, são apenas aspectos de uma mesma coisa, e a despeito de um “ser” possuir maior capacidade intelectual que outro, ainda assim isso não caracteriza uma diferença entre os dois, pois o cérebro, independente dos seus limites individuais, é um atributo comum a ambos, com a mesma função. Ainda, uma carência nutricional ou genética, reflete apenas as condições onde cada um se desenvolve, e isso pode caracterizar de forma dramática os limites da capacidade individual, mas não uma diferença como ser biológico.
Em comum há também o processo de formação da psique de cada um. São atividades mecânicas, onde o indivíduo, representado por sua mente, aprende sobre as coisas que o cercam enquanto cresce, através de um simples processo de imitação e associação, como numa atividade da escola primária de enumerar a primeira coluna, de acordo com a segunda, e assim por diante. Nesse curso de formação da base de memórias, todos estarão sujeitos às mesmas influências externas, embora aqui e ali possam mudar às condições materiais onde cada um se desenvolverá. O espaço que cada um ocupa, fará diferente o conteúdo de sua psique, da sua mente.
Sua mente no entanto, salvo por restrições patológicas, não difere em funcionamento da mente dos outros de sua espécie. Entretanto, o conteúdo, a fará aparentemente distinta das outras, é uma questão do tempo de cada uma. Esse tempo é em primeiro lugar, o espaço ocupado pelo veículo que a abriga, que a limitará conforme sejam as influências locais, todo conhecimento ali disponível para que possa assimilar. Outra condição que lhe dá a impressão de ser diferente, está na exclusividade individual que tem cada indivíduo, ao experimentar uma emoção, uma vivência qualquer, uma vez que o “espaço-tempo” cronológico passa a atuar de forma decisiva nas suas percepções.
Sendo o processo comparativo e imitativo seu mecanismo de assimilação de informação, a mente só é capaz de perceber o que acumulou depois do fato, isso cria em si mesma a impressão de ser distinta das demais; a idéia de tempo cronológica; o antes e o depois. Ela não é capaz de perceber o tempo simultâneo que rege todas as coisas com as quais interage. Trata-se de uma questão de estar atenta para o que faz, coisa que não consegue por ter uma natureza autônoma, que age por impulso involuntário.
A mente mecânica por natureza é, portanto, incapaz de presenciar o fato enquanto o mesmo se processa, o que exigiria de si atenção integral, plena, o que a impediria de vagar sem rumo em outras direções, conforme é seu padrão natural e habitual.
O processo em andamento significa a simultaneidade, momento único, onde todas as ocorrências acontecem, num só espaço-tempo, sem tempo; um único e exclusivo processo onde todos, por igual, ao mesmo tempo, experimentam o fato de estarem vivos. É o momento que podemos chamar de “agora” ou atemporal, pois não acontece e passa como nosso processo mecânico de atuar imagina, ele constitui a própria ocorrência, ou todas possíveis, ao mesmo tempo.
O estado de atenção só pode ocorrer fora do tempo, no “agora” permanente. Por ser de natureza mecânica, o pensamento atua por identificação, o que quer dizer, comparação e similaridade, onde tende a se arraigar através das preferências. Ao se identificar, ele só pode fazê-lo no tempo cronológico, uma vez que a figura do avaliador é necessária para isso. Assim, ele se identifica no passado, permanecendo no tempo, desatento, o que reflete seu estado natural de ser, que é a desatenção, ou natureza distraída.
O andamento de uma atividade qualquer, é sempre contínuo, e não há um início ou fim para que possa finalmente ser vivenciado depois de ocorrido. Nada se vivencia no passado, apenas no momentum contínuo ativo, que é o único tempo que há. Podemos imaginar um recipiente onde tudo está guardado dentro. Por ser imenso, os objetos não conseguem se encontrar; estão separados entre si por outros objetos, e desejando fazer a busca, ou se deslocarem de um extremo ao outro, terão que fazê-lo percorrendo o espaço que os delimitam. Para os indivíduos há uma distância a ser percorrida, para o recipiente, nada acontece.
A mente atenta compreende a parte que ela própria é, mas acima de tudo, passa a perceber em si mesma, que o fato de ser indivíduo, é o que caracteriza a condição do todo existir em partes. Sem o todo em partes, nada existiria, nem o todo. É como o procedimento operacional da mente mecânica, que age à revelia da vontade do seu dono, que simplesmente presencia o mundo sem objetivo nenhum e, no entanto, é exatamente essa distância, entre a ignorância e consciência de si mesma, a razão de existir o tempo que a torna virtualmente separada.
Ao perceber a importância do tempo como delimitador de si mesma, a mente também compreende, que o seu passado é o seu presente, que não pode existir sem ele. Sendo ela própria o passado, ele representa o tempo presente, seu agora, o tempo fora do tempo, uma vez que se resume ao que atualmente é; uma síntese psicológica, onde o tempo é apenas virtual, não real. Não existe o tempo fora dela, não o tempo de suas lembranças já acumuladas, já incorporadas ao seu ser integral, onde tanto consciente quanto inconsciente, operam num só recipiente, simultaneamente.
As lembranças jamais representam um passado concreto, apenas uma alusão virtual de algo que ainda existe; não como uma vivência que foi abandonada e esquecida, mas como um atributo que lhe foi incorporado, e que agora faz parte de si mesmo, como habilidade, experiência, etc. Ao reviver uma lembrança e emocionalmente se apegar como um observador olhando de fora algo que vivenciou, essa mente ainda não compreendeu seu processo interno, onde o avaliador é a própria coisa avaliada.
A despeito da complexidade desse percebimento, o mesmo torna-se a base, de onde finalmente o homem poderá exercer sua vontade, com ciência disso, atento e dono de suas decisões, longe do processo involuntário que até então caracterizava todo seu existir. Percebe ele, então, que seu momento atual, é também o momento atual de todos os seres, não apenas do seu mundo, mas de todo universo, e que fora desse momento atual, nada mais existe, apenas sua imaginação distraída consigo mesma, tentando criar um tempo só para si.
Autor: Jon Talber
email: jontalber@gmail.com
Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
Notas:
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O autor é Professor e pesquisador das ciências filosóficas.
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