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A Experiência do Místico e o Misticismo
A perfeição é uma meta inatingível; isso significaria o fim da transformação, a estagnação, o objetivo final, de onde
nenhum passo mais seria possível.
Autor: Jon Talber
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Pode alguém que vive na ilusão dissertar sobre a realidade?
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Ao relatar sua experiência a outro, o místico erra, por não considerar que seu experimento é pessoal, que depende da sua
forma particular de ver as coisas e interpretar fatos, o que tende a não corresponder, de forma alguma, uma
verdade, como deseja ele enfim. Sua vivência não pode ser transferida para outros através
de palavras, além disso, trata-se, não de uma vivência, mas de sua interpretação pessoal da mesma.
Se considerarmos o seu ego como resultado das influências do mundo, sendo sua personalidade, uma simples repetição da mentalidade
que já existe lá fora, não podemos ignorar, que ele próprio não interprete aquela vivência segundo suas
conclusões. Tente-se descrever uma coisa, qualquer coisa, e nossa mente já interfere, colocando, inserindo ali, elementos
claros, peculiares de nossa personalidade.
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Não podemos então considerar como verdadeiro um experimento pessoal à nível espiritual, sendo que o próprio
argumento, isto é, a condição espiritual praticada no mundo, toda mística que envolve a coisa, também já são fortes
sugestões para que a mente possa criar aquilo que deseja. Afinal de contas, o que interpreta a nossa mente senão
aquilo que ela própria já conhece e já absorveu do mundo?
Assim, a experiência pessoal do místico não poderia ser descrita, até como forma de não fazer com os outros, aquilo
que os outros já fizeram com ele mesmo, ao influenciá-lo. Uma mente repleta de expectativas, das tradições ou
crenças, de onde extraiu tudo que é e sabe, acaba por tentar simular em si mesmo tais experimentos. E sua vivência
mística ao tentar ser descrita, encontrará no ouvinte resultados imprevisíveis, uma vez que agora, uma experiência
tende a confrontar com outra, criando mais confusão e deformação que clareza ou utilidade.
O místico que deseja descrever sua experiência é na verdade imaturo e inconseqüente; vive sob o jugo do seu próprio
ego sedento de distinção, e reflete mais um desejo de dominação, onde aquele que se julga superior, tem a necessidade
de se afirmar com tal diante daqueles que julga inferiores.
Mas o que deseja um ego sedento de notoriedade senão de uma legião de inferiores para o idolatrarem? Há notoriedade
sem bajuladores, sem os séqüitos sedentos de alguém para idolatrar e de um idolatrado sedento de idolatria? Não seria
isso o momento existencial máximo de um ego em busca de uma segura fortaleza para se abrigar? Não busca então esse
ego a segurança da idolatria, como se aqueles supostamente dominados ao reverenciá-lo atestassem sua superioridade, sua
performance bem sucedida no mundo?
Quando sequer sabemos se aquilo que descrevemos é a mesma coisa que está sendo assimilado pelo que ouve, mesmo diante
de coisas concretas, jamais, poderíamos ou deveríamos o tentar com as coisas abstratas, quando a certeza de sua
verdadeira natureza e fisiologia é tudo que não temos. Não podemos ter certeza de nada, nossa mente não o permite, e isso
não depende de tratados, ou opiniões de especialistas, ou de santos, ou mestres, ou de quem quer que seja, e, felizmente
que não depende, pois finalmente podemos apenas afirmar que, não temos certeza de nada, é o limite da nossa
compreensão, e isso é uma verdade.
Logo é imprudente e danoso, certificar uma experiência pessoal como verdadeira diante de outros, o que tende a
deformar, condicionar de maneira irreparável, a capacidade de avaliar e perceber dos mesmos. Se não somos capazes
de sermos neutros, não devemos então descrever, relatar, criar místicas em torno das experimentações pessoais, uma
vez que isso apenas revela um ego sedento de distinção, de destaque e idolatria por parte daqueles que supostamente
não são capazes de tais “feitos”.
O mesmo vale para a demonstração de poderes. Que benefícios a demonstração pública de poder pode proporcionar ao
místico, senão arrebanhar idolatria por parte dos seus seguidores? Afirma-se ele então sob o jugo do poder, o que
reflete a mesma condição anterior, onde a busca por atenção e destaque é a única causa. O verdadeiro poder do místico
é aprender a controlar seus instintos egoícos, ávidos por idolatria, méritos, conquistas espirituais e benefícios
da mesma natureza. Demonstrar poderes torna-se então uma atitude de extrema imaturidade e infantilidade, uma vez que
nada acrescenta a si nem aos outros. Ainda, suscita a disputa sem escrúpulos entre seus adoradores, a inveja, e mais
afasta que aproxima do caminho espiritual aquele peregrino.
A força da Creação não se exibe, e até sua existência, por falta de evidências concretas é um mistério. Assim como é
em cima deveria ser embaixo. Mas no mundo dos predadores, o exibicionismo é tudo, é como a erva daninha, que prefere
solo fértil já tratado, que fertilizar o seu próprio.
Se busca o caminhante silêncio interior, porque deveria praticar o seu inverso? Pode aquele que apreendeu de um mundo
confuso, ter a clareza necessária para se auto-intitular senhor da verdade? O que nos ensina o mundo senão a mentalidade
que lhe é peculiar, suas deformações e cruezas, seus desejos e causas?
Conta-se que um homem partiu em busca de clareza, e cansado da jornada, senta para descansar à margem da estrada, sob
uma árvore. Ali adormece a acorda quando já é noite, e mesmo assim resolve caminhar na escuridão. Alguns passos
adiante, cego pela escuridão, tropeça e cai, por pouco não se machucando seriamente. Então ao erguer-se
comenta: “Clareza não deve ser uma coisa que se encontre no escuro, mas compreender que na escuridão os perigos
se tornam ameaças concretas.”.
Compreender então que não se obtém luz nas trevas, deve ser a primeira verdade do caminhante. Compreendido que a
luz não nasce da escuridão, é o mesmo que acender a luz interior de cada um. Torna assim o peregrino apto a iluminar
seu próprio caminho, não a erradicar a escuridão, pois esta existe a despeito da luz. Poderá agora ver de dentro da
escuridão, inicialmente apenas em sua volta, e à medida que avança sua compreensão, tornar-se-á maior seu campo de
visão dentro do escuro. Torna-se ele luz ao compreender que no escuro não há luz para si, mas que este
mesmo escuro, finalmente o permite acender sua própria chama, e isso é o início da clareza.
Autor: Jon Talber
email: jontalber@gmail.com
O autor é Professor e pesquisador.
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