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O RETORNO DA DEUSA
“Em seus ensinamentos Jesus anuncia a igualdade fundamental
entre o homem e a mulher, postura revolucionária para a época."
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Feminino e Masculino são componentes do Ser, sejam eles hormônios ou valores. Este Ser integral, no entanto, vagarosamente, foi sendo dividido pela sociedade patriarcal, que o reduziu apenas aos valores determinados culturalmente a um e a outro sexo. Desta forma, poder, força, ordem, dever, competitividade, razão, lógica, abstração, que são valores genuinamente masculinos, ficaram restritos ao homem. Os valores femininos tais como, emoção, sensibilidade, intuição, perdão, cooperação, sensualidade, fertilidade, cuidado em relação ao outro, que são valores atribuídos ao sexo feminino, ficaram restritos à mulher. A partir desta verdadeira “cirurgia cultural”, o feminino passou a ser indistintamente sinônimo de mulher, assim como masculino de homem. Em ambos os casos o Ser ficou restrito apenas a uma parte dos seus atributos.
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Esta destinação cultural dos atributos humanos só recentemente começou a ser desmistificada. Quem de nós não conhece inúmeros exemplos de mulheres extremamente competitivas, que não hesitam em usar sua força e seu poder para atingir seus objetivos, mesmo que a custa da destruição do outro, ou da outra? Da mesma forma que, quem de nós não poderia citar inúmeros exemplos de homens intuitivos, sensíveis, que pautam suas vidas pelo profundo sentimento de cooperação e pelo cuidado em relação ao outro? Também não é difícil compreender que os valores femininos e masculinos inerentes ao Ser não se referem às opções sexuais de cada um.
Para ser sensível, o homem não precisa renunciar à sua masculinidade, tampouco a mulher, para fazer uso da lógica, da razão e da abstração, não precisa deixar de ser feminina. Hoje estamos descobrindo que os valores inerentes ao feminino e ao masculino guardam uma relação muito mais profunda com a
postura ética de cada um, com sua visão de mundo e com seu crescimento interior do que com o sexo, preferências sexuais, ou mesmo com os gêneros. Nos mais variados mitos da criação os povos se referenciam ao masculino como sendo Ouranos, o Céu, e ao feminino como sendo Gaia, a Terra, de cuja união tudo se originou. Masculino e feminino, portanto, fazem parte do transcendente.
O papel civilizatório do mito cristão
Nas sociedades pagãs, intuição ou bravura não era prerrogativa de um ou de outro sexo. Deusas e deuses amavam, guerreavam, se emocionavam, caçavam... A separação de atributos por sexo ainda não havia sido operada. Esta separação, e a conseqüente valorização de uns em detrimento dos demais começa a se tornar cada vez mais evidente à medida que a sociedade patriarcal evolui. Para a consolidação da exclusividade masculina, o patriarcado teve que esmagar seu principal inimigo, o feminino. Mais do que a mulher, o feminino é que metia medo aos homens. Era esse lado sensível, intuitivo, curador e místico, que as mulheres possuem e alguns homens também, que precisava ser esmagado para que a Era da Razão se impusesse plenamente.
Patriarcado e cristianismo se uniram na construção uma sociedade baseada nos valores masculinos. A Deusa, a Mãe-Natureza, o princípio feminino, a mulher, foram submetidas ao princípio masculino: razão, competição, poder. Talvez a Igreja cristã tenha sido a instituição mais eficaz na tarefa de forjar o mito do homem, enquanto o único ser criado à imagem e semelhança de Deus, tendo recebido Dele o poder de dominar a natureza e toda a criação. Para a hierarquia da Igreja Católica essa imagem, fruto do Velho Testamento, foi muito mais forte do que a própria mensagem do Cristo, que nunca pregou a superioridade masculina. Em seus ensinamentos Jesus anuncia a igualdade fundamental entre o homem e a mulher, postura revolucionária para a época.
Contrariando os costumes do seu tempo, Jesus, de bom grado, cerca-se de mulheres em suas atividades públicas, conversa com elas, trata-as como pessoas, sobretudo quando são desprezadas
pelos costumes da época, ou apedrejadas pelos “túmulos caiados”. Apesar de esta ser a mensagem do Mestre, até mesmo os apóstolos tiveram dificuldades em assimilar seus ensinamentos e superar os preconceitos ditados pela sociedade patriarcal. Para a estrutura hierárquica da Igreja, a igualdade preconizada pelo Cristo cedeu diante dos obstáculos nascidos do contexto cultural no qual o cristianismo se difundiu. Depois de muitos conclaves, a Igreja começou a venerar a Mãe de Deus, a Virgem Maria, instituindo-a como modelo para o sexo feminino, porém, continuou vendo a mulher como causa de todos os pecados do mundo e fonte de perdição.
Tudo começou com o medo
Jean Delumeau[2] nos diz que os pesadelos mais íntimos da civilização ocidental neste último milênio foram: o mar, os mortos, as trevas, a fome, a peste, a bruxaria, o apocalipse e, sobretudo, o demônio. Analisando este conjunto, poderíamos reduzi-lo a um único medo: o da mulher, visto que culturalmente ela está relacionada com cada um deles.
O mar: O desbravamento do mar, para a conquista de novos continentes pressupunha o enfrentamento das sereias. “Monstros do mar, com cabeça e tronco de mulher, e o resto do corpo igual ao de um peixe, elas seduziam os navegadores pela beleza de seu rosto e pela melodia do seu canto para, em seguida, arrastá-los para o fundo do mar e devorá-los. Ulisses teve que amarrar-se ao mastro de seu navio para não ceder à sedução do seu chamado. Elas representam os perigos da navegação marítima e a própria morte.”[3]
Os mortos: Georges Duby[4] salienta que entre as mulheres e os falecidos parece existirem relações privilegiadas. “Assim como o corpo dos recém-nascidos, o corpo dos defuntos pertence à mulher". Sua tarefa é lavá-lo, adorná-lo, ungi-lo, assim como Maria Madalena e suas companheiras preparavam-se para fazê-lo na manhã de Páscoa. (...) o temeroso, o misterioso, o inquietante, o incontestável poder das mulheres se deve principalmente a que, assim como a terra fértil, a vida sai de suas entranhas. E quando a vida se extingue, retorna para elas como para a terra acolhedora. Estas são as duas funções da feminilidade: materna e funerária.
As trevas: As trevas são também à noite, a obscuridade, o pecado, a queda, a perda do paraíso, o inferno, a falta de domínio sobre a sexualidade. As trevas são os domínios de Lilith, que foi banida do Paraíso por não aceitar se submeter a Adão, transformando-se num demônio feminino noturno de longos cabelos, que ataca homens e mulheres na escuridão da noite. Assim está escrito no Zohar: “É justo e adequado que as duas luzes governem; a luz maior de dia e a luz menor de noite. Desse modo, o domínio do dia pertence ao macho e o domínio da noite à fêmea”. Para Bárbara B. Koltuv[5] “as forças da sexualidade, do nascimento, da vida e da morte, do mágico ciclo da vida eram originalmente governadas pela Deusa.
Com o advento do patriarcado, o poder de vida e morte tornou-se uma prerrogativa de um Deus masculino, ao mesmo tempo em que a sexualidade e a magia da criação eram separadas da procriação e da maternidade.” Esta
separação salta aos olhos se analisarmos a Idade Média, período em que o culto à Virgem Maria e a construção das catedrais ocorreu concomitantemente com a criação do Tribunal do Santo Ofício, ou a chamada "Santa Inquisição", responsável pelo extermínio massivo de mulheres sob acusação de bruxaria. Para a Igreja Católica, Mãe e Mulher são opostos que se excluem.
A fome: A mulher, assim como a Mãe-Natureza, é a eterna doadora de alimento. Portanto, poderia parecer contraditório relacionar o medo da fome à mulher, contudo, depois que a maternidade foi separada da sexualidade, mãe e mulher passaram a ser seres dicotômicos, permanentemente em oposição. Depois que Adão e Eva foram expulsos do paraíso, o homem passou a ser responsabilizado pelo provimento da família através do trabalho, e a mulher recebeu a sina de parir com dor o fruto de sua sexualidade e causa de sua culpa. Como o trabalho é penoso e necessita de coerção para ser realizado esta se dá através da repressão ao prazer. Trabalho e prazer se situam em campos opostos; os homens que não se privam do prazer não trabalham, daí decorre a fome, cuja culpa é imputada, em última instância, à mulher.
A peste: O ódio à mulher foi crescendo na mesma proporção que o poder patriarcal. Na Idade Média as mulheres eram acusadas de pactuarem com o demônio e responsabilizadas por sua capacidade de, em nome do diabo, exercer qualquer tipo de malefício humano e sobre-humano, inclusive a produção de tempestades ou a propagação de pestes. O medo provocado pela mulher e a conseqüente repressão às bruxas medievais são importantes para se compreender as conexões entre a destruição da religiosidade pagã, o estabelecimento do modelo patriarcal e a imposição do cristianismo.
As bruxas: Ao escrever a introdução brasileira ao Malleus Maleficarum, Carlos Byington[6] afirma que na Inquisição o ódio à mulher misturou-se à atração mórbida por ela, devido à sexualidade culturalmente reprimida. “Isso fez com que a tortura para se obter confissões de bruxarias incluísse procedimentos sexualmente perversos que incluíam voyeurismo e sadismo. As mulheres eram despidas e seus cabelos e pêlos eram raspados à procura de objetos enfeitiçados e escondidos em suas partes íntimas. As torturas praticadas são difíceis de imaginar, mas o texto dá idéia de terem sido terríveis, sobretudo porque o processo recomendado pelo Malleus é um delírio francamente paranóide orientado para se obter confissões, e não para verificar a culpabilidade.”
O demônio: Antes do século XI o diabo era abstrato e teológico. Sua existência era um problema apenas para os doutores da Igreja e para os estudiosos da teologia. Mas, pouco a pouco, ele foi ganhando espaço e se tornando cada vez mais concreto, saltando das pinturas que recobrem as paredes e os vitrais das igrejas até a total possessão dos corpos humanos, sobretudo das mulheres, que passaram a ser sua própria encarnação.
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Notas:
[1] -
A Autora é Professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Coordenadora do Curso de Especialização em Ciências das Religiões, da Universidade Federal da Paraíba.
[2] -
DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente. São Paulo: Cia das Letras, 1996.
[3] -
Cf. Dicionário de Símbolos. Chevalier e Gherbrant. RJ: José Olympio, 1996.
[4] -
DUBY, Georges. Damas do século XII: A lembrança das ancestrais. SP: Cia das Letras, 1997.
[5] -
KOLTUV, B. O Livro de Lilith: Psicologia e Mitologia. SP: Cultrix, 1989.
[6] -
Malleus Maleficarum: O Martelo das Feiticeiras. RJ: Rosa dos Tempos, 1991.
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