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O RETORNO DA DEUSA


Autora: Neide Miele[1]

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O Apocalipse

A idéia de final dos tempos através de uma hecatombe universal persegue a humanidade desde o primeiro século da era cristã, quando João Evangelista escreveu o Apocalipse, último livro do Novo Testamento. No capítulo 6, de sua visão apocalíptica do propósito de Deus, João descreve quatro cavalos montados, cujos ginetes simbolizam a guerra (o do cavalo vermelho), o conflito civil (o do cavalo branco, que, segundo algumas interpretações, viria montado pelo próprio Cristo), a fome (o do cavalo negro) e a morte, ou a peste (o do cavalo amarelo).

O Apocalipse foi escrito para preparar os cristãos para a última intervenção de Deus nos assuntos terrenos. Depois dele, recomeçaria uma nova era no mundo, a chamada Era de Ouro. Contudo, antes do seu advento, os males e terrores da ordem mundial se agravariam ao extremo. Efetivamente, tendo chegado ao vigésimo primeiro século da era cristã, a humanidade não tem muito do que se orgulhar, mesmo levando-se em conta todos os avanços produzidos pelo saber científico.

A espera de um cataclismo universal tem sido registrada por todos os povos, de todas as religiões, desde a antiguidade até nossos dias. Para a maioria o Apocalipse significa a destruição total do planeta e da humanidade, para outros, a destruição é a condição necessária para a renovação.


Um novo tempo

As profundas mudanças que estamos presenciando na sociedade contemporânea, dizem os esoteristas, é apenas a ponta do iceberg das imensas transformações provocadas pela proximidade da Era de Aquarius, na qual a humanidade entrará num novo ciclo de prosperidade, de paz, de justiça e de espiritualidade. Se o termo “Nova Era”, ou New Age, é relativamente novo, a concepção milenarista da qual ele provém é muito antiga.

No livro Mil anos de Felicidade Jean Delumeau diz que, “diversamente do que se afirma, o milenarismo não se refere ao passado, mas ao período imediatamente anterior ao Juízo Final, que se dará com o retorno do Cristo e a instauração do seu reino, verdadeiro paraíso reencontrado, no qual os povos viveriam em perfeita comunidade, livres da dor e do mal, partilhando bens e prescindindo de leis, do Estado e da própria Igreja. Essa crença nasce do Apocalipse de João e de Passagens do Antigo Testamento, como a profecia de Daniel, sobre os cinco impérios que precederiam o reino do Messias. Embora combatida por Santo Agostinho e marginalizada pela tradição oficial da Igreja, essa expectativa de restauração de um Paraíso Perdido atua profundamente em toda a história do Ocidente cristão e é especialmente forte no destino dos povos ibéricos e protestantes que colonizaram a América, que é a terra de todas as promessas.”

As promessas de uma Era de Ouro podem ser retomadas na mais antiga tradição oriental. Os livros sagrados do Hinduismo afirmam que já houve outras Eras de Ouro, seguidas da existência de sucessivas Era de Prata, Era de Bonze e Era de Ferro. Segundo eles, atualmente estamos vivendo na Era de Ferro, também chamada de Kali Yuga, que é o final de um ciclo e condição necessária para a passagem do planeta Terra e da humanidade para uma dimensão mais evoluída.

Jean Delumeau reconstitui cuidadosamente a gênese do milenarismo, partindo de seus ideólogos, passando pelas ações revolucionárias das modernas utopias políticas, para chegar às concepções esotéricas atualmente denominadas de Nova Era. Esse autor define assim a Era de Aquarius: “Essa era paradisíaca de 2160 anos, tempo que levará o Sol para percorrer a parte do zodíaco denominada de signo de aquarius”. A Nova Era se define como um “novo paradigma”, isto é, uma nova maneira de ver as coisas e de conceber nossa relação com o universo. Postula que um espírito universal está na origem de todas as coisas e no centro de todo ser humano. Contesta os ídolos da modernidade, a ditadura da razão e da técnica. Crê no advento próximo de um mundo renovado em que cada ser humano se reconhecerá como um fragmento da consciência cósmica. Deus está em cada um de nós, donde a necessidade da “viagem interior”[9].

Para Sri Sathya Sai Baba, místico que atualmente vive na Índia, todas as religiões convergem para uma unidade transcendente, assim como todos os povos convergem para uma humanidade planetária. Ele afirma que: “Só há uma religião, a religião do amor. Só há uma casta, a casta da humanidade. Só há uma linguagem, a linguagem do coração. Só há um Deus, e Ele é Onipresente".

Na concepção esotérica, este ciclo de 25.000 anos que agora se finda foi marcado pelos valores patriarcais e pelo sacrifício[10]. Ambos cederão lugar a uma nova Era de Ouro da humanidade, onde a solidariedade prevalecerá sobre a competição, onde não haverá massacres, genocídios, exploração ou qualquer forma de sujeição. Será um mundo onde a tecnologia e a ciência estarão subordinadas à ética, onde a política estará orientada pelo respeito à coisa pública, onde o espiritual estará liberto dos dogmas inventados pelos homens, que servem apenas aos seus espúrios interesses. Enganam-se, porém, aqueles que acham que estas idéias partem apenas dos grupos esotéricos. Muitos cientistas incluíram-nas em suas teses e eles não são poucos.


O retorno da Deusa

As últimas décadas do século XX, final de mais um milênio, trouxeram para a mulher um doce sabor de conquista. Não que os problemas que ela tem enfrentado desde o fundo das eras tenham sido resolvidos. Claro que não! No entanto, a contemporaneidade está forjando uma nova mulher, e certamente um novo homem. Tudo ainda está muito confuso, o velho modelo ainda não foi completamente quebrado, nem o novo despontou em sua plenitude. Mas as experimentações continuam...

Apesar do caos aparente, o balanço do último milênio indica um saldo positivo. A mulher madura passou a controlar melhor seu corpo, sua sexualidade, sua liberdade de escolha, porém as adolescentes ainda estão perdidas com a nova liberdade. A conquista do espaço no mercado de trabalho trouxe independência financeira, mas aumentou o sentimento de culpa das mães em relação à sua menor presença na educação dos filhos e este é um problema ainda não devidamente enfrentado e menos ainda resolvido. Um passo positivo em busca do equilíbrio foi a superação da veemência inicial do feminismo, que focava o homem como o principal inimigo da mulher. Ela descobriu que sua luta é muito maior que a simples libertação da mulher, que sua verdadeira luta pressupõe a construção de um novo homem, de uma nova mulher e de uma outra relação entre os seres humanos, calcada em alicerces mais saudáveis que a posse e a dominação de um sobre o outro. A mulher descobriu que a sociedade patriarcal exacerbou os valores masculinos da competição e da sobrevivência do mais forte ao estender a dominação que exercia sobre o feminino para os homens mais fracos e para os países mais pobres. Assim, ela descobriu que o maior inimigo não é o homem, mas os valores patriarcais.

Ao sair à luta as mulheres provocaram uma reviravolta nas certezas masculinas. Estas certezas começaram a ser reavaliadas e redimensionadas. Os homens começam a questionar se era realmente vantajoso o lugar que lhes foi atribuído pela sociedade patriarcal.

Há indícios que estamos vivendo uma transição radical de crepúsculo do patriarcado. Está surgindo uma nova consciência planetária com fortes preocupações ecológicas. O feminismo nos tornou conscientes dos valores patriarcais e dos seus efeitos repressivos e perversos sobre o feminino, mais do que simplesmente sobre a mulher. Com sua orientação para o poder e para a subjugação, com ênfase na dominação e na hierarquização, o patriarcado é visto cada vez mais intensamente como algo destrutivo, tanto para os seres humanos quanto para o planeta. O poder masculino de reger o mundo e de dominar a natureza chegou ao ápice em nossa civilização. Diante do atual estágio de devastação não é mais possível separar nossas concepções de “progresso” com as ações destrutivas do planeta. Progresso, em nossa civilização, significa a capacidade de consumir, onde o TER é muito mais importante do que SER. No entanto, é crescente o número de pessoas que já não se dispõe mais a compartilhar esses valores.

A Nova Era se caracteriza pela predominância do feminino, assim como na Era de Peixes predominou o masculino. Na evolução zodiacal a Era da Deusa foi substituída pela Era do Deus único, monoteísta, que agora cede novamente seu lugar à Deusa. O monoteísmo representa tipicamente um deus que pode existir sozinho, apartado de sua criação. Essa concepção de divindade criou no homem um profundo sentimento de superioridade, que permitiu e justificou sua arrogância e conseqüente dominação em relação à mulher, à Natureza e aos demais homens considerados “mais fracos”. A imagem da Deusa, por outro lado, representa a unificação do Uno-Muitos em termos de integração e mútua consubstanciação do Uno-manifesto-nos-Muitos e os Muitos habitando no seio do Uno.

Com o renascimento da imagem da Deusa está sendo criado um novo sistema de valores que, certamente, redimensionará as relações entre homens e mulheres, entre a religião e a filosofia, entre a vida social e os sistemas político e econômico. Atualmente, as concepções de “desenvolvimento” e de “progresso”, seja de uma pessoa ou de um país, estão diretamente relacionadas com os bens materiais que possui e, no caso dos países, com a capacidade da sua produção industrial. No entanto, muitos são os autores que começam a redimensionar a noção de desenvolvimento, deixando o pólo da produção e (má) distribuição de bens materiais, para considerar o desenvolvimento e convivência dos seres humanos como os melhores indicadores. Utopia? Talvez. Contudo é necessário optar, pois o tempo dos espectadores está rapidamente chegando ao fim.




Autora: Neide Miele.
eMail: neide.miele@terra.com.br


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Notas:

[1] - A Autora é Professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Coordenadora do Curso de Especialização em Ciências das Religiões, da Universidade Federal da Paraíba.

[9] - DELUMEAU. Op. Cit. (1997)

[10] - Na Era de Touro o sacrifício humano era literal. Inúmeras tradições buscavam abrandar a ira divina com sangue humano. Na era seguinte, a Era de Áries, o carneiro passou a ser imolado. Na Era de Peixes Jesus assume o ônus do sacrifício e diz: "Eu sou o cordeiro de Deus". A partir dele o sacrifício passou a ser apenas simbólico.
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