 |
 |
 |
A Descontinuidade Aparente
" O CONHECIMENTO LEVA À UNICIDADE, E A IGNORÂNCIA À DIVERSIDADE".
Ramakrishna
|

FIGURA 1 - BISCOITO
|
Naturalmente não é fácil uma pessoa que por milênios viveu num plano tridimensional entender com clareza a natureza uma. O mundo que nos parece tão concreto, tão real na maneira como o sentimos, na verdade, nada mais é do que uma decorrência da limitação perceptiva da Mente. Para que se possa sentir o quanto é falha e imperfeita a idéia que fazemos do mundo podemos usar a ilustração 1[1], pois conforme o ditado: “Uma imagem vale por mil palavras”, então atentemos para a referida ilustração 1.
No desenho, a primeira imagem reflete algo tridimensional, no caso podemos considerar um biscoito vasado no centro. Nela o biscoito é percebido como totalidade, como uma unicidade, como algo único. Agora, consideremos que a percepção (visão) esteja direcionada em um plano – Desenho da segunda imagem –, então a imagem de um só objeto passa a ser de dois. Um ser que existisse num mundo de duas dimensões veria o “biscoito” como se fossem dois. Para ele não haveria qualquer dúvida sobre isso, mas seria uma realidade absoluta, ou apenas uma realidade inerente ao seu nível de percepção? Podemos comparar esse desenho com a estória do elefante e dos cegos. O elefante visto como um todo e visto como partes.
|
![]() |
 |
No primeiro desenho não haveria dois objetos, nem polaridade, nem necessidade de espaço, nem limite separando algo, nem mesmo razão para deslocamento. Enquanto isso, na visão do plano algo interessante ocorre. Aquilo que é uno é percebido como duplo – a unicidade se converte em multiplicidade –, apenas como resultado da incapacidade do ser bidimensional perceber a totalidade do biscoito. Não ocorre duplicidade do objeto, mas sim da percepção.
Analisando-se a terceira imagem podemos sentir conseqüências da limitação de percepção. Um ser hipotético que por alguma razão não conseguisse ver o “biscoito” inteiro, – primeiro e segundo desenhos o que é uno passa a ser “visto” como dois. Se a limitação sensorial – Mente – só permitisse a visualização em um plano, então em vez de uma ele veria duas imagens; surgindo, então a idéia de multiplicidade – a descontinuidade.
Esse desenho permite sentir que muitas coisas consideradas reais, na verdade, são apenas aparências – formas da Mente justificar a descontinuidade – incluindo-se muitos preceitos da física, tais como tempo cronológico, espaço, movimento, aceleração, etc. A Força de Gravidade, atrações magnéticas e tudo nesse campo só ocorrem porque há mais do que um objeto. A Mente, julgando a existência de dois objetos distintos, estabelece atração recíproca e tudo o mais.
A imagem em consideração mostra a inconsistência dos Princípios Herméticos. Eles servem maravilhosamente bem para a nossa convivência com o Mundo de Maya, mesmo que indiquem não serem mais que conseqüência da ilusão de multiplicidade.
A condição mostrada no desenho dá lugar a várias ilusões. Na verdade só há um objeto – biscoito – mas o observador tem certeza de que são dois – terceiro desenho – criando a ilusão da descontinuidade. Baseada na lógica o observador não tem como aceitar que os dois objetos percebidos são apenas um. Eles, na realidade, são apenas um, mas a imagem una – unicidade – ao ser percebida limitadamente, em descontinuidade é interpretada pela Mente, e então aceita como sendo duas – dualidade.
|
![]() |
|
Cada uma das imagens é totalmente idêntica à outra – Princípio da Correspondência – o que faz cada imagem ter um aparente “limite” próprio que a caracteriza como uma possível diversidade que não é real, e sim um engodo mental.
Naturalmente, para serem duas imagens tem que haver certo deslocamento, elas têm que se apresentar como se estivessem afastadas, consequentemente mantendo distância entre elas – espaço – que, para ser “percorrido”, necessita de – tempo – assim como de “movimento” e consequentemente velocidade, e outras condições inerentes, tal como o ritmo. O movimento não sendo algo real, e como neste mundo, concreta ou abstratamente, tudo o envolva, então, desde que ele seja uma aparência gerada pela percepção – Mente –, tudo aquilo que diga lhe respeito não vai além de efeitos do tipo de percepção.
O pseudo-afastamento gera uma aparente polarização, ou seja, responde pela ilusão da polarização - Polaridade.
Vemos que todos os Princípios Herméticos se manifestam a partir desde quando a ilusão da descontinuidade se faz sentir. Na verdade, nada disso existe realmente, apenas é uma exigência da mente, um modo dela interpretar aquilo que não é capaz de “ver” em plenitude. Vemos que todos os Princípios Herméticos se manifestam, mas que todos não refletem uma realidade plena, e sim relativa. Relativa à limitação perceptiva que fez com que aquilo que é um, passe a ser considerado como sendo dois, e assim por diante.
Os seres são imagens do Ser que ignoram sua natureza uma.

FIGURA 2
Consideremos os dois aparentes objetos representados na terceira figura da ilustração 1. Se o “biscoito” fosse o Ser único, naturalmente ele seria percebido como dois seres. Assim podemos chamá-los de eu e tu. Se um dos objetos percebesse que faziam parte de uma mesma unicidade com o outro, então muitas características não se faziam sentir. Por acreditar o outro objeto – ser – não fazer parte de si mesmo, então nascem as desvirtudes: ciúme, orgulho, inveja, mágoa, rancor, desconfiança, egoísmo, individualismo, ou seja, tudo aquilo que mantém o afastamento. A Mente cristaliza algo que não é real, que não é distinto de si mesma. Todas as citadas condições não passam de uma traição da Mente – a percepção da descontinuidade.
Podemos entender como a Mente é um aspecto “diabólico” em contraposição com a Consciência. “Divide e impera”, diz um antigo provérbio romano. A Mente faz exatamente isso, divide para imperar sobre a Consciência. Diz outro ditado: “Se queres vencer teu inimigo, conhece-o”, por isso devemos conhecer a nossa manifestação como ser, mas na certeza de sermos o Ser. Sentir que todos os seres são a gente mesma; que nada existe além do Um, a multiplicidade é uma mera aparência.
Autor: José Laércio do Egito - F.R.C.
email: thot@hotlink.com.br
Notas:
[1] -
Este desenho é uma adaptação com detalhamento de um desenho original de F. Kapra.
|
![]() |
|
|
|
|  |