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A VEDANTA E O KARMA
“Uma longa viagem começa por um passo."
Provérbio Chinês
Autor: José Laércio do Egito
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Boas sementes não bastam para uma boa colheita...
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Somente através da doutrina do Karma pode-se obter alguma luz a respeito de uma das mais sérias indagações, a elucidação de um dos mistérios constrangedores: Por que o inocente sofre? Por que Deus permite mal? Deus desampara no agir ou ele não escolhe? E se Ele escolhe não agir, e isto gera um mau então Ele é cruel? Ou meramente indiferente?
Vedanta tira o problema do tribunal de Deus colocando-o no individual quando diz: “ Nós não podemos culpar nem a Deus nem a um diabo nem pelas vicissitudes e nem pelos sucessos. Nada acontece a nós pelo capricho de alguma agência externa: nós mesmos somos os responsáveis pelo que vida nos traz; todos nós estamos colhendo os resultados de nossas próprias ações prévias nesta vida ou em vidas pretéritas”.
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Para entender isto melhor precisamos primeiro entender a lei de Karma. A palavra " Karma " vem do sânscrito verbo kri, fazer. Embora Karma signifique ação, também significa o resultado da ação. Quaisquer atos que executemos, e até mesmo qualquer pensamento que tenhamos, cria uma “impressão” tanto em nossas mentes quanto no universo ao redor de nós. Por isto o universo devolve a nós o que nós damos a ele. Por isto é que ações boas e pensamentos bons criam efeitos bons, por outro lado os ruins criam efeitos ruins.
Sempre que a pessoa executa alguma ação e sempre que mantém qualquer pensamento, uma impressão - um tipo de encaixe sutil - é feito na mente. Estas impressões ou encaixes são conhecidos como samskaras. À pessoa está consciente do processo; da mesma maneira que na maioria das vezes ela não está. Quando ações e pensamentos são repetitivos, os encaixes tornam-se mais profundos, mais marcantes. A combinação de “arranhaduras” - samskaras - cria os caráteres individuais e também passam a exercer fortes influências nos pensamentos subseqüentes. Assim é que se cria uma mente brava predisposta a reagir com raiva, em lugar de reagir com paciência ou entendimento. Tal como água fluindo com força entalha canais na terra, assim também os “encaixes” na mente criam “canais” de padrões de comportamento extraordinariamente difíceis de resistir a eles ou invertê-los. Mudar um hábito mental inveterado literalmente se torna uma grande batalha.
Aqueles “entalhes” são gravados não no corpo físico mas em alguns dos corpos sutis e assim sendo, quando o processo atinge um dos corpos que são preservados entre uma encarnação e outra, então se tem estabelecido um Karma[1].
Na Vedanta a vida humana e é explicada tendo como base da teoria do Karma que determina o ciclo de renascimentos. Todas as ações, boas ou más, criam os próprios resíduos de karmicos chamados VASANAS.
Se os pensamentos forem predominantemente de bondade, amor, e compaixão, nosso caráter refletirá isto, e estes mesmos pensamentos serão devolvidos cedo ou tarde a nós. Se nós enviarmos pensamentos de ódio, raiva, ou coisas assim, estes pensamentos também serão devolvidos a nós.
Dizem os ensinamentos vedantas: “Nossos pensamentos e ações não são como setas e sim como bumerangues que voltam à mão que o arremessou. Os efeitos de Karma podem vir imediatamente, depois em vida, ou em outra vida; o que é absolutamente certo, porém, é que eles aparecerão num momento ou noutro. Até que liberação seja alcançada, nós vivemos e nós morremos sob o efeito da lei de Karma, a cadeia de causa e efeito”.
Muitos têm idéia de que o Karma é de uma só natureza, mas na verdade existem diversos tipos de Karma, tais como o Karma pessoal, o carma coletivo, o Karma planetário e mesmo universal. Mas, os que mais afetam diretamente a pessoa são de três tipos:
Karma-Prârabdha - Trata-se daquele já começado, aquele cujos efeitos manifestam-se agora. São os que constituem aquilo que chamamos de “nosso caráter” e que condicionam as múltiplas circunstâncias que nos cercam na vida presente. Trata-se do Karma que já começou a frutificar ou seja aquele que é responsável pelo nascimento atual. É o Karma que já começou a produzir resultados, tais como a nossa experiência e que é o Karma que responsável pelo nascimento atual.
Karma-sañchita - O Karma acumulado aquele que ainda virá a se fazer sentir. O Karma que ainda irá frutificar. Contanto que o ciclo de renascimentos continue, mais Karmas desse tipo serão acumulados e se farão sentir no futuro. É por este Karma que se manifestam as tendências individuais.
Agâmi-Karma ou Kriyamâna em criação, ou formação. Este tem grande significação pois é a porta de entrada dos pesares do futuro. Cabe à pessoa agir corretamente evitando a formação desse carma. Na verdade Karma não é somente algo que é resgatado, ele também pode estar sendo criado à cada momento de nossas vidas.
Somente quando todos os Karmas estiverem ausentes é que ocorrerá a “Liberação” (Moksha). Liberação dos vínculos da carne e da matéria ou da vida nesta Terra. Para muitos é tem o mesmo significado de Nirvâna; um estado de repouso e de bem-aventurança da alma. Assim o Glossário Teosófico define: ”Mosha significa liberação, desligamento, emancipação, salvação; é a liberação definitiva dos laços do corpo e da matéria em geral e, consequentemente, liberação das dores da existência mundana. Em tal estado, o Espirito individual, isento de toda nova encarnação, é absorvido no Espirito Universal. Esta liberação final, portanto, é considerada como a suprema bem-aventurança” .
Muitas vezes a cultura ocidental estranha e as religiões cristãs negam o Karma mas São Paulo falou dele ao dizer: “ Tudo o que o homem semear, ele colherá” ( Galatras, VI-7 ). Isto é idêntico ao que diz o Purânas : “Todo homem colhe as conseqüências de seus próprio atos”.
O que acontece quando não se atinge a liberação? Quando uma pessoa morre, a única "morte" é do corpo físico. A mente que contém as impressões mentais de uma pessoa continua depois da morte do corpo. Quando a pessoa renasce, o "nascimento" é apenas o de um corpo físico novo acompanhado pela mente velha com as impressões ou "encaixes" de vidas passadas. Os samskaras apresentam-se na vida nova. Por sorte que este processo não continua eternamente. Quando a pessoa atinge um nível de realização divina - Deus-realização - a lei de Karma é transcendida, o Ego deixa sua identificação com o corpo e recupera sua liberdade, perfeição e felicidade original.
A lei do Karma faria da Vedanta uma filosofia fria e fatalista? De forma alguma Vedanta é e profundamente compassiva. Primeiro, se a pessoa cria - por seus próprios pensamentos e ações - a vida que está vivenciando agora, por outro ela também pode criar a vida que viverá amanhã. Vedanta apenas não permite colocar as culpas em outro lugar: “todo pensamento e ação constrói nossa experiência futura”.
Um outro ponto que faz parecer a lei do Karma uma lei fria é quando é aplicada, como já o foi por algumas escolas orientais, cujos adeptos ao verem, por exemplo, uma pessoa se afogando, não faziam nada para salvá-la sob o pretexto de que ela está resgatando o que plantou. Na verdade a lei do Karma insinua que nós podemos ser indiferentes aos seres da mesma categoria porque, afinal de contas, eles estão recebendo o que merecem? - Absolutamente não. Se o Karma de uma pessoa é tal que ela está sofrendo, nós temos uma oportunidade se não de eliminar aquele sofrimento pelo menos torná-lo mais ameno. Nós sempre podemos oferecer um auxílio, mesmo que seja uma palavra amável. Se nós escolhemos não fazer o que está em nosso poder limitado de aliviar a dor dos que estão ao redor, por certo estamos marcando um Karma ruim para nós mesmos.
Na verdade não é uma coisa muito fácil administrar o carma, tanto o nosso quanto o dos outros. É importante auxiliar mas deve-se sempre ter em mente que o dita a conduta deve ser o sentimento e a intuição, par que a pessoa em vez de ser auxiliada acabe sendo prejudicada. Em cada um de nós existe a Divindade - Atma - que se faz presente na hora de agir. Antes de se auxiliar deve-se escutar a voz do sentimento interior que é a voz do Atma Divino.
Autor: José Laércio do Egito - F.R.C.
email: thot@hotlink.com.br
Notas:
[1] -
Vide temas 353-277-278-279-280-281-282-284-286
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