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O CAMINHO DO CONHECIMENTO

“ Quanto menos inteligente um homem é,
menos misteriosa lhe parece a existência. "

Arthur Schopenhauer


Autor: José Laércio do Egito




Os limites do Ego, podemos enxergar com nossos olhos...
Nesta série de palestra temos exposto alguns aspectos da Vedanta. Por certo este sistema filosófico tem contribuído decisivamente na manutenção da chama do monismo, quer no sentido informativo quer no prático.

Inicialmente queremos dizer que no Ocidente normalmente se tem uma idéia muito limitada da Ioga, desde que a maioria das pessoas pratica a Hatha Ioga como uma simples forma de ginástica que faz bem à saúde. Na verdade isto é uma parcela mínima da Ioga, ela tem uma amplitude que ultrapassa em muito os limites de conservação fica do organismo ou mesmo um maior nível de equilíbrio emocional.

Nestas palestras o nosso propósito não é o aprofundamento em ramos da metafísica ou das religiões, mas apenas mostrar algumas características básicas de grande número de sistemas a fim de que o discípulo possa entender o que existe neste campo, e especialmente ter condições de se defender de possíveis malefícios e também de conscienciosamente poder fazer uso de certos princípios. Também temos como propósito mostrar a existência de elos entre diferentes sistemas filosófico-religiosos.
Normalmente percebe-se o espaço dentro e fora de um corpo como diferentes, da mesma maneira como o vemos como algo separado do espírito. Ioga de Jnana leva o devoto a perceber a sua unidade com o espírito universal destruindo esse sentimento mediante a dissolução dos véus de ignorância.

Antes de praticar a Ioga de Jnana, é muito útil que o aspirante haja integrado conhecimentos básicos dos outros caminhos da ioga, pois sem que haja sentido a abnegação e o amor de tudo e por tudo a busca da auto-realização pode se tornar uma mera especulação.

A Vedanta afirma que não basta se ter conhecimento da unicidade de todas as coisas, é preciso mais que isso é preciso a pessoa sentir-se parte dela, sentir que ela e Deus são uma única realidade. Nesse sentido a Vedanta transmite ensinamentos que visam desenvolver na pessoa esse estado de unicidade, distribuídos em 4 tipos principais de Ioga: Karma Ioga - Bhakti Ioga - Raja Ioga - Jnana Ioga.

Esta palestra diz respeito ao quarto método, o da Ioga de Jnana.

Ioga de Jnana leva o devoto a sentir a unidade diretamente dissolvendo os véus de ignorância, é a ioga de conhecimento, não o conhecimento no senso intelectual, mas o conhecimento de Brâhman e âtman e a realização da unidade deles. Onde o devoto Bhakti segue o coração, o Jnana usa os poderes da mente para discernir entre a realidade e a irrealidade, ou seja, entre o permanente e o transitório.

Como, então, atua a Jnana Ioga? - Normalmente cada pessoa considera a si mesmo como algo único, independente, como se fosse algo diverso das outras pessoas e do mundo que a cerca, ou seja, vê-se como uma realidade fora de tudo. Mas, a partir do momento em que, de alguma forma, ela venha ter dúvidas a respeito da realidade das coisas, então, ela também começa a duvidar da própria realidade de si mesmo deixando, assim de se sentir como algo independente do universo. Isto quebra a tremenda força dominante que constitui o ego e assim torna-se bem mais fácil a sua integração com todo o universo e, conseqüentemente, vem a se sentir simplesmente como parte integrante do Todo e isto é o mesmo que se unificar com o Cósmico; ou seja, União com Brahmâ.

Jnana Ioga também é conhecido pelo nome de “caminho do conhecimento”, “caminho da sabedoria”. Este sistema de ioga visa ensinar alguns métodos que devidamente praticados facilitam a “União com Deus através do conhecimento espiritual”, no que difere, por exemplo, da Karma Ioga que tem como objetivo básico à “união através da ação”.

Pelo discernimento a pessoa pode perceber que coisa alguma é real, que coisa alguma é exatamente tal qual é percebido. Meditando sobre a natureza das coisas começa a por em dúvida a sua própria individualidade e assim termina por sentir que ela é o âtman que integra todos os seres - Eu e Tu somos UM.

Os Jnanis são os seguidores do não dualismo, ou Advaita Vedanta, que também é chamado monismo. Eles afirmam que a única realidade é Brahmân. Claro que, todos os seguidores de Vedanta também são monistas desde que todos afirmam que a realidade única é Brahmân. A distinção aqui diz respeito apenas à prática espiritual, mesmo que todos o Vedantinos sejam filosoficamente monistas, na prática, algumas vezes eles preferem pensar em Deus como algo distinto, com a finalidade de desfrutarem da doçura de uma relação mútua. Estabelecem assim uma relação tão estreita com Deus que acabam por sentirem-se parte do Próprio Deus.

Os Jnanis sabem e afirmam que toda a dualidade é ignorância e afirmam que não há necessidade alguma de se buscar a Divindade fora de si, mas apenas senti-la. E o que impede a pessoa saber sobre sua natureza real? - É a própria natureza do mundo ao redor, ou seja, o véu de Maya. A Ioga de Jnana é o processo de rasgar aquele véu diretamente.

Um Jnana não afirma ser o universo irreal. Se indagado a respeito ele responderá: Sim e não. No sentido absoluto ele é irreal e no relativo ele é real. Para entendermos melhor voltemos a nos reportar ao exemplo da “corda e da cobra” já referido numa palestra anterior. No sentido relativo a corda atua como se fosse uma cobra desencadeando na pessoa aquelas reações que lhe despertaria a cobra. No sentido não relativo trata-se apenas de uma corda. Tudo não passa de uma ilusão. A corda ao ser vista é maya. Mas não se pode negar que não existe algo, que originou aquela a impressão de tratar-se de uma cobra. Mas, desde o momento em que a pessoa reconhece tratar-se de uma simples corda, então ela não mais é atingida pela falsa impressão de antes.

Muitas pessoas entendem maya como se fosse um nada existir. No exemplo anterior, não existir nem cobra e nem a corda. Em suma, o universo com acreditamos ser nos condiciona miríades de reações e isto sim é mera ilusão - maya - (a cobra), mas na verdade existe algo que não é ilusão e que provoca aquilo - realidade (a corda). Enquanto estivermos vendo a corda como uma cobra ela tem uma realidade condicional; nosso coração palpita e temos outras reações, o mesmo acontece com relação ao universo.

A Jnana dá ênfase a auto-afirmação. O discípulo deve fazer uma série de afirmações para si mesmo. Nós devemos afirmar continuamente sobre o que é real em nós mesmo, por exemplo, afirmar que não somos limitados a um corpo físico pequeno; que não estamos limitados, que somos um espírito, e que é a nossa essência é Âtman, por isso nunca nascemos e nunca morreremos.

Uma das afirmações básicas é que somos puros, perfeitos, eternos e livres e que isto é a maior verdade do nosso ser. De início, está ativa na pessoa a negação disto, mas a meditação sobre a impermanência das coisas, associada a essa afirmação repetidamente feita por um grande número de vezes, acaba por condicioná-la à aceitação das afirmações. De inicio a pessoa tende a negar para si mesmo todas as qualidades citadas antes, pois ela duvida disto, mas passo a passo termina por não mais duvidar e sentir-se como tal, então está efetivado o rompimento do véu de maya.

A filosofia por trás da Auto-afirmação é simples. Ela diz: “assim como você pensa, assim você se torna”. A pessoa programa-se por milhares de vidas a se aceitar como um ser limitado, fraco, desamparado, etc. por isto, mesmo sendo uma inverdade ainda assim é algo que condiciona a existência de um ego-destrutivo. Sobre isto afirma a Vedanta: “É o pior veneno que nós podemos ingerir”. “Se nos julgarmos fracos, agiremos como tal; se nos julgarmos pecadores e desamparados, assim agiremos; mas, desde o momento em pensamos ser um Espírito puro, perfeito e livre, então agiremos como tal”.

Na vida as pessoas vivem martelando, dispondo os pensamentos repetidamente e induzindo assim condições limitadas em decorrência da natureza dualística dominante. O pensamento divisionário, limitante, age como se fosse toques repetidos de um tambor repetidamente por muito tempo e assim acaba por serem criadas na mente impressões erradas. Na verdade é preciso inverter o processo “tocando tambor em nossos cérebros” com afirmações positivas, com pensamentos certos, pensamentos de pureza, pensamentos de força, pensamentos de verdade e assim por diante. Dentro desta perspectiva o Ashtavakra Samhita, um texto de Advaita clássico, declara: “Eu sou consciência imaculada, tranqüila, pura, e além de natureza. Todo esse tempo eu fui enganado pela ilusão”.

Ioga de Jnana usa os consideráveis poderes mentais para exterminar o processo enganador, fazendo ver que nós somos agora, como sempre o fomos, livres, perfeitos, infinitos, imortais e divinos; e, ao mesmo tempo, reconhecendo nos outros, essa mesma divindade, a mesma pureza e a mesma perfeição; libertando a pessoa da dolorosa limitação do “eu” e do “meu”. Quando isto acontece podemos ver Brahmân em todos os lugares e em tudo.





Autor: José Laércio do Egito - F.R.C.
email: thot@hotlink.com.br




   Imprima esta Página Adicione aos Favoritos Última atualização: 28 de Dezembro de 2007
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