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A Época de Zarathustra


"A gente todos os dias arruma os
cabelos; por que não o Coração?"
Provérbio Chinês

zaratustra
Ilustração de Zarathustra em tecido. Sua provável origem é da antiga Pérsia
A fim de que se possa compreender melhor a natureza da missão de Zarathrusta é importante que se tenha em mente idéia de como era a época em que ele viveu, os conceitos religiosos e o modo de vida do povo persa.

São poucas as informações comprováveis sobre a vida e o sistema social da época em que viveu Zaratrusta. Na verdade nem ao menos se sabe com certeza a data e o lugar exato do seu nascimento. Nesse sentido, a rigor, tudo o que existe são meras hipóteses contraditórias, sendo a mais aceita delas a que afirma haver ele nascido entre 1.400 e 1.100 a.C., em algum lugar no Irã Oriental.
As mais confiáveis informações existentes vêm do Avesta e da literatura de Pahlavi, como também de alguns documentos gregos e relatórios romanos. Sente-se que são poucos os registros que existem sobre a sociedade, a religião, a cultura e a política do período em que Zarathrusta viveu, por isto é que a literatura especializada moderna está repleta de especulações e suposições. Por causa da escassez de informações, e das opiniões especulativos contraditórias, é difícil separar os fatos da ficção. Os únicos registros confiaveis sobre a época de Zarathrusta são oriundos do Gathas - hinos compostos pelo próprio Zarathushtra -, mas mesmo assim o que se pode tirar deles é bem resumido desde que se trata de coletânea de hinos que totalizam apenas cerca de 6.000 palavras distribuídas em 17 capítulos. Como os Gathas dizem respeito especialmente ao aspecto doutrinário pouco se pode concluir a respeito da pessoa de Zaratrusta. É difícil através daqueles se ter idéia da pessoa, ou seja, do perfil do profeta e, menos ainda, uma idéia do ambiente social e meio cultural e religioso existente no seu tempo. Nunca o Gathas foi considerado uma crônica social, cultural, política, ou até mesmo narrativas dos eventos religiosos da época, pois na verdade são apenas hinos fervorosos de uma alma iluminada, com os quais busca mostrar às pessoas o modo de vida delas poderem destruir o mal que existe neste mundo.

É surpreendente como aqueles hinos foram mal interpretados por alguns para justificar suas próprias teorias. Como diz James Multon: "Ver o Gathas isolado do resto da história e da tradição é como levar uma folha de uma árvore de uma floresta e usá-la para fazer uma determinação definitiva de toda a vegetação rica e variada que existe na floresta inteira".

Parte das dificuldades históricas sobre Zaratrusta e sua época oriunda da carência de documentos confiáveis pode ser contornada comparando-se informações de fontes não iranianas da mesma época, ou seja, a cultura védica. São, portanto, fontes que procedem da cultura Indo-ariana que conviveu com a própria cultura védica da qual sofreu certas influências.

Os Indo-Iranianos migraram das estepes de Ásia Central para as planícies de Índia e convivendo com a religião Védica. Felizmente a literatura indo-ariana em grande parte foi preservada desde que esteve sujeita aos ciclos de destruição que literatura iraniana sofreu com a invasão árabe e outras.

Em torno de 3.000 a.C. os precursores dos Proto-Indo-Iranianos começaram a migrar para o sul das estepes da Ásia Central separando-se em dois grupos; um que migrou em direção sudoeste e se instalou no noroeste de Índia; e o outro, para o sudeste da e estabeleceu-se no planalto Iraniano (Boyce: 1987, pág. 513). Antes da separação os dois grupos de pessoas compartilhavam de uma cultura, idioma e religião comuns e somente depois da separação, em decorrência de várias circunstâncias em suas novas pátrias, foi que cada grupo desenvolveu idéias culturais e religiosas um tanto separadas, mas mesmo assim muitos aspectos comuns continuaram existindo. Também vale salientar que as migrações e separação dos povos não cessaram de repente, pois na verdade elas ocorreram em ondas, durante décadas e até mesmo séculos. Assim mesmo depois da separação das duas sociedades, os iranianos e os Indo-arianos, em muitas partes de Ásia Central, mantiveram idiomas e práticas religiosas bem aproximadas, mas sem dúvidas o ramo que migrou para a Índia sofreu certas influências dos Vedas e isto tem grande significação como veremos depois. O grupo que migrou em direção à Índia incorporou muitos conceitos da religião Veda, mas mesmo assim conservou a maior parte dos seus costumes.

Pelas razões expostas muitas informações sobre o tipo de sociedade da época de Zaratrusta pode ser esclarecido a partir da própria cultura védica . O tipo de organização social, e especialmente religiosa, tem certa significação no sentido de se determinar se Zaratrusta foi apenas um sacerdote, um Profeta de Deus, ou um Avatar - Manifestação Divina em forma humana. Para muitos estudiosos Zaratrusta foi apenas um sacerdote. Um dos grandes estudiosos de Zaratrusta, Moulton endossa essa hipótese mas sem que apresente evidências que justifiquem s afirmação de que Zaratrusta foi apenas um sacerdote e não um Avatar. Há muitas referências e artigos sobre esta questão [1]. Segundo alguns ele foi um sacerdote e segundo outros foi um profeta um Iniciador Divino. Segundo James Moulton, Zarathrusta não pertencia à classe sacerdotal. Sabe-se que o sacerdócio no Irã no tempo de Zaratrusta parece haver existido com classe social, e até mesmo tratar-se de uma profissão transferível por herança.
tibet
Sul do Tibet onde a 9000 anos atrás começaram os ensinamentos de Zarathustra
O Zoroastrismo foi, em grande parte, destruído pelos árabes em época bem mais recente e isto fez com que grande volume de informações fossem perdidas, porém o mesmo não aconteceu com o ramo indiano tão intensamente.

A influência védica foi importante para a preservação do Zoroastrianismo especialmente porque fortaleceu o sentido monista, permitindo que a negatividade não fosse uma decorrência da existência de um ser eterno e sim uma manifestação dentro da criação. Houve preservação da idéia de um deus único, da base monista.
Consideramos a discussão existente em torno de se Zarathrusta foi um Sacerdote Persa ou um Avatar um tanto sem significação, pois como Avatar ele pode ser considerado também um Sacerdote. Acreditamos assim porque o termo Zoroastro diz respeito a um cargo hierárquico no sacerdócio persa de priscas eras, e há registros de que Zarathrustra foi o derradeiro a ocupar essa função.

NOTA:
Muitos usam indistintamente os termos Zoroastro e Zaratrusta, mas há uma diferença básica. O termo Zoroastro indicava na Pérsia algo como uma dinastia - tal como o termo Faraó no Egito. Assim sendo na Pérsia houve diversos Zoroastro, sendo Zaratrusta o derrradeiro deles.





Autor: José Laércio do Egito - F.R.C.
email: thot@hotlink.com.br




Referências Bibliográficas: [1]
  1. M. Boyce, (1987): Os Sacerdotes e Homens, Boletim da Escola de Estudos Orientais e africanos, Vol. 50, não. 3, pp.508-526,
  2. M. Boyce, (1989a): História do Zoroastrianism, Vol. 1, Leiden,
  3. M. Boyce, (1989b): Pessoas de Avestan, em Encyclopaedia Iranica, Vol. III, ED. Eshan Yarshater
  4. T. Cova, (1973): O Proto-Indoaryans, Diário da Sociedade Asiática Real, pp. 123-140
  5. W. Geiger, (1886): Civilização dos iranianos Orientais, tr. D. PÁG. Sanjana, Lon-dom,
  6. K. F. Geldner, (1925): ZAOTA, em Estudos Indo-iranianos em Honour de Dastur Darab Peshotan Sanjana, Londres,
  7. G. Gnoli, (1980): o Tempo de Zoroaster e Pátria, Nápoles,
  8. J. Duchesne-Guillemin, (1973): Religião de Irã Antigo, Bombay,
  9. HERODOTUS: As Histórias, tr. George Rawlinson, Londres,
  10. S. K. Hodiwala, (1924): Religião Indo-iraniana, Diário do K. R. Cama Ori-ental Instituto, Vol. 10
  11. H. Humbach e PÁG. Ichaporia, (1994): A Herança de Zarathushtra, Heidelberg,
  12. UM. V. W. o Jackson, (1928): Zoroaster: O Profeta de Irã Antigo, Columbia Universidade Imprensa, Nova Iorque,
  13. B. Lincoln, (1981): o Padre, os Guerreiros e Gado, Berkeley.
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